terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Naqueles dias, ela andava como todos os ilhéus: ilhada, encharcada, germinando dores, afogando amores e doando os afetos que não mais serviam.
Pensou se ainda havia um futuro ou uma vida pelos quais lutar, se ainda havia um horizonte para sonhar... Ao redor tudo se mostrou cinzento e amorfo, céu líquido a desabar sobre as vidas, a morte a chegar inexoravelmente por todos os lados.
Mas algo a fazia continuar, caminhar, subir a montanha para tentar enxergar a linha divisória entre céu e águas. Afinal ainda havia vida, embora embaçada pela névoa que nublava os olhos dos passantes.
Até quando resistiria? Isso ninguém conseguiria responder naquele momento, talvez só depois que a vida tivesse sido editada.
Muito menos ela, que não conseguia  ver até onde iria aquela morte que mordia os pedaços do mundo aos bocados gordos, deixando ao fim apenas os ossos que costumam sobrar nos banquetes de fim de ano.

Ela realmente não sabia, mas como diria Deckard,  “who knows?”...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Noite quente de Oyá

Cadeiras vermelhas de plástico engaioladas no subúrbio

O Bronx suspira na colina

Cadeias de alumínio impedem a fuga de alecrins e manjericões

A erva fina sobe aos céus

A noite é quente e ventosa em setembro


A noite é de Oyá

a chuva depois do pai

e a chuva cai e o cheiro do cinza molhado entra pela janela 

ouço barulho de vassouras esfregando o chão e levantando a espuma 

vem a vontade de dormir no verão 

uma tarde preguiça ao som do trovão...

Fogo nos olhos/stranger in the night



E hoje, voando na manhã de vento sul tardio, quase findo, quase nada, vejo o homem lavando a calçada do quiosque e ouço o som da voz de sinatra aos berros de strangers in the night e vejo os guris pulando velozes com suas pranchas aladas no cimento do calçadão.
Olho pra garota que sorri pra mim e eu devolvo o sorriso apesar do meu nãohumor dos últimos dias/acontecimentos/decepções e calorosas angústias e penso que strangers in the night combina com os voos dos skates e então o céu plúmbeo se abre e derrama prata líquida no mar.
Penso que os afetos se vão e as nuvens se movem e tudo se transforma eternamente e ternamente em um fluxo constante de matéria líquida no ralo de um julho onde as pontes ganharam novos e incríveis significados.


E as pessoas agora têm fogo nos olhos...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Com a alma na estrada.

Eu vi o filme, pois é, eu vi... Quem aqui viu “On the Road”? Aliás, quem leu o livro? Ou melhor, quem leu o livro e viu o filme? Como gosto da literatura beat que me inspirou no passado e continua a me inspirar, sinto-me instigada a escrever sobre o filme e mais ainda sobre o livro, pois ultimamente ando lendo muitos autores que cruzam com a linha beat no que ela tem de literatura confessional, dessa escrita na primeira pessoa, além, é claro, de já ter lido Kerouak pra caralho, embora, nos últimos tempos o venha achando um menino criado por vó, ou pela mãe, sei lá. Mas uma coisa eu não posso negar, o cara se jogou. Nessa linha andei pegando uns caras pesados pra ler, brothers de escrita que não se furtam a chamar as coisas pelos nomes e que não tiveram medo de se esborrachar na vida. Suas escritas tem a marca de quem se jogou quebrando tudo na queda. Isso vai desde um Hunter Thompson, até um Henry Miller, passando por Bukowsky, claro, e até Anais Nin, no que ela tem de libertária ao ser uma mulher escrevendo sobre as suas trepadas autobiográficas e chamando buceta de buceta. Também reli o Big Sur do Kerouak, um dos livros da fase final da vida do escritor, um livro cheio da dor e do desencanto de quem viveu demais e se fudeu na estrada. E leio essa turma, pois considero-os realmente brothers da escrita, sinto-me irmanada a eles por alguma corrente poderosa que não respeita as coordenadas espaço-temporais... Com eles me encontro nas encruzilhadas e bifurcações que a minha própria linha da vida me levou, caminhos quase sempre perdidos em estradas que eu não escolhi, mas pelas quais fui escolhida em uma loucura zen sem ter nada de zen, uma loucura iluminada pela insanidade dos tempos, dos espaços, onde transitam os loucos e os aventureiros perdidos na arte, na escrita, no cinema e na loucura de quem não se encaixa muito bem nos sapatos apertados da pós modernidade. Mas, por estar talvez em um momento de intensidade criativa, sentindo os ventos da liberdade de não estar amarrada a nada e nem a ninguém, as ideias tem me assaltado, assim como a vontade de cruzar continentes. Por isso escrevo insanamente e leio com volúpia e gula, mas estradar ainda não está dando, apenas a trabalho, o que também me agrada, apesar de sentir falta da estrada em si, pois que a estrada transforma, a estrada ilumina, na estrada você se mistura ao sujo do mundo, enquanto nos aeroportos, os não-lugares por excelência, ninguém vê nada, mas ainda assim, restam as ruas de todas as cidades por onde andei, por onde ando e andarei. E então, fui ver On the road. Estava doida pra ver, queria ver aquelas imagens que trazia na minha mente de todas as vezes que li o livro, imagens misturadas com minhas próprias histórias, queria vê-las impressas na tela. E assim esperei o filme chegar e eu ter tempo de ir. Então, tive tempo, mas comecei a achar que odiaria o filme e que o filho do banqueiro não teria culhões para a podrera insana da escrita beat e quase desisti. Mas antes mesmo de ver o filme começamos alguns tópicos de discussão nas listas e redes. Algumas pessoas já tinham visto, outras não, umas diziam que era ruim, tedioso, que quase dormiram, uma merda mesmo! Outras diziam que não veriam, outras ainda que queriam conferir e outras que viram e que gostaram. Bom, ainda bem que não desisti. Fui na quarta feira acompanhada da minha filha e do namorado dela. Fui a um cinema num shopping perto da minha casa e voltamos andando pra casa conversando sobre o filme e eu fui falando um pouco sobre o livro e sobre outros da mesma cepa. Os dois falavam das suas impressões, disseram que gostaram, mesmo sem terem lido o livro ou vivido o sonho de inúmeras gerações com a mítica história de Kerouak cruzando a américa dos anos 50 na rota caótica e louca dos deserdados do sonho americano do pós guerra. Eu confesso que gostei do filme. Gostei e sai inspirada, gostei e muitas lembranças e ideias vieram à tona e acho que um bom filme ou um bom livro nos deixa assim, com as ideias querendo pular da cabeça pro mundo, rugindo na urgência do tempo criativo, nos atropelando para ganharem vida... E é assim que eu estou até agora. Mas também confesso que a experiência do filme é mais intensa para quem leu o livro, ou para quem tem as suas próprias histórias de estrada e loucura pra contar. Kerouak ousou olhar a cara do mundo e ela lhe devolveu o olhar através dos olhos dos outros loucos com os quas ele esbarrou nos descaminhos do pesadelo americano. E então, quero saber de quem viu o filme e leu o livro também, pois tem algumas questões que me incomodaram, mesmo tendo gostado da experiência fílmica do Walter Salles. Quem leu o livro, ou conhece o processo de criação da literatura beat, sabe que um dos grandes méritos da literatura de Kerouak é a sua fluidez rítmica que buscou raízes no bebop e na improvisação. Apesar do cara vir de uma linhagem de escritores confessionais que buscaram nas próprias experiências de vida a matéria da escrita, sua literatura está apoiada na escrita automática e tenta reproduzir o ritmo do jazz. É quase uma escrita xamânica que se entrega ao transe e, nesse ponto específico, o filme deixa muito a desejar, nessa transposição do ritmo intenso das palavras surgindo e suingando sincopadas para a tela tansformadas em imagens e sons, que não ocorre nunca no filme. Ok, ele tenta dar esse ritmo no encadeamento frenético de situações caóticas pelas quais os personagens se jogam nas suas vidas aventureiras, ou seja, na história vivida por eles, no relato da experiência, mas não consegue imprimir esse ritmo à narrativa, à montagem, ao mix das imagens e sons do filme. Falta ainda, ao meu ver, traduzir o ponto de vista do personagem Kerouak, ou Sal Paradise, pois não conseguimos enxergar este ponto de vista, o local de onde ele fala no filme. Ele é apenas mais um dos personagens de Salles, quando sabemos que ele é o cara que está vendo aquilo, é o cara que está contando aquela história, é sua voz que deveríamos sentir mais fortemente no filme e ela praticamente some, mesmo sendo essencial na sua invenção de um estado intenso de deslocamento como estilo de vida. Um amigo me disse que tomou “um tapa”, pois nunca tinha lido um livro beat e que ficou “gastando na relação de angústia/prazer que existia na busca deles. Gastação à parte, fiquei intrigado e pretendo começar a ler. Hehehe” – Palavras dele, assim mesmo, numa troca de impressões pelo Facebook. Ao que eu respondi que concordava com a relação de angústia/prazer. A estrada se torna o local ideal pra que essa relação surja realçada em todo o seu contraste. Alí os personagens estão deslocados dos seus outros vínculos, de suas outras relações, não há amarras, eles estão descolados das condicionantes dos seus universos referenciais, de suas famílias, mulheres, filhos, mães, amigos... Na estrada eles podem se entregar às suas próprias fabulações de si e do mundo e é aí que tudo fica mais claro e duro e bonito e feio e sujo e nem tanto, o prazer e a dor sobrepostos em um deslocamento sensorial sem fim. Mas é disso também que sinto falta no filme. No livro não é só o relato da experiência que interessa, a narrativa vai além. Está impresso de forma indelével o desejo de ir de encontro à vida e ultrapassar a “fachada”. O cair na estrada é o cair na vida, se esborrachar na vida, fazer o mundo, se misturar ao mundo. E nessa entrega eles desnudam o que foi aquela geração, o que era a “américa”. Eles desconstroem uma américa para construir outra américa, desconstroem um heroi americano pra erigir outro mito de herói ou anti-herói das estradas, eles descontroem o que era o mundo de aparências daquela década desnudando nesse processo, as dores dos homens, a pobreza dos homens, a loucura de todos os homens, desde sempre, desde que o mundo sempre foi o mundo dos homens e que estava bem escondidinha debaixo dos tons pastel do mundo de propaganda das donas de casa e dos eletrodomésticos do pós-guerra. Então, meu amigo me diz que eles são “andarilhos insanos” e eu só posso concordar, pois é isso, os andarilhos sempre foram insanos pelos olhos do mundo. E eles sempre estiveram no mundo e continuarão no mundo, nas avenidas paulista e vieira souto, nas praias do canto, nas BRs, nas rodovias pelos litorais, nos bares fudidos e vivos das periferias, nos jardins botânicos, nas praias e praças... Enfeiando a paisagem das vitrines das lojas mais caras do planeta e sujando o jantar das famílias. E eles optaram por serem andarilhos insanos e todos pagaram o preço como todos os andarilhos insanos sempre pagaram e continuarão a pagar cumprindo a louca função social e cultural de desnudar a loucura do mundo, mostrar a ferida do mundo e ser a ferida do mundo. Eles se recusaram a se encaixar no padrão, se recusaram a ser capturados pelas normatizações tão presentes no nosso presente insípido de shoppings centers... Nessa rota de colisão eles foram os próprios olhos do mundo e a torta rota do mundo encarnada nos seus corpos imundos da jornada inútil onde nunca houve ponto de chegada nem prêmio pro vencedor. São esses meus brothers de estrada e de escrita.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

domingo, 10 de janeiro de 2010

tem tempo...

engraçado, tem tempo que não me visito..., talvez seja hora de encerrar e partir pra outra aventura, ou talvez até já esteja fazendo isso mesmo... afinal, é essa a natureza da espiral

sexta-feira, 17 de julho de 2009

e meu pai e o horizonte e o universo conspirando...

hoje sinto um novo hemisfério e sinto a queda do céu no mar e as ondas em slow de novo e de novo e julho virou e o ano entrou em outra dimensão sem perceber e a arte vem junto com as ondas e o meu pai está vivo e bem e o mundo pode parecer o que é pois sempre se parece o que se é, mas nunca se é só que se é, pois só é o que se parece ser... mas dias lindos de julho se sucedem e as nuvens se afastaram e o céu continua rosazul na minha ilha e hoje vi um ipê branco e não tem oráculo mais belo do que um ipê branco contra o cerúleo azul do horizonte atlântico... e agora tomo cerveja e é só prazer e sei que o lugar é um lugar e não um nãolugar ou um entrelugar e tenho orgulho que seja só prazer nesse lugar aquiagora e é só estética, pois que a ética anda precisando de remendos e a estética de uma vida construída na beleza e no amor e na amizade e na aventura infinda de estar vivo e ser real e cruel como só a vida selvagem pode ser...

sábado, 28 de março de 2009

A CAMINHO DE ATIBAIA

27/03/09

DEIXO OS CARMAS ALHEIOS PRA TRÁS NA DECOLAGEM VERMELHA DO MAGMA SOLAR SOBRE NUVENS RÁPIDAS QUE ME VEEM ENQUANTO EU AS VEJO PASSAR. E EU GOSTO DA MINHA VIDA PRA CARALHO, DA AVENTURA CAÓTICA E SEM DESTINO, DESATINO DE CURUPIRA RODOPIANDO COMO VENTO DE SACI-EXU NA ENCRUZILHADA ONDE ERGO MEU ALTAR NO ALTO DO MUNDO VENTANIA QUE NÃO PODE SER CAPTURADA POR REDES DE AMARGURA...
E AS FLORES ROXAS DOS IPÊS BRILHAM RUBRAS NA LUZ DA MANHÃ EM QUE ME DESCUBRO LIVRE.
SÃO JORGE NO PEITO MATA O DRAGÃO DA MALDADE COM SUA ESPADA FLAMEJANTE, MAS O CRIATIVO DO I CHING ME DIZ QUE O DRAGÃO COMEÇA A APARECER NO CÉU. O DRAGÃO ESTÁ NO AR... PRESTATENÇÃO, RAPAZ! A NEGADA DANÇA SUA DANÇA INFERNAL NA PRAÇA E O APOCALIPSE DA MODERNIDADE... REVOLUÇÕES MOLECULARES SACODEM OS CORPOS EM SUA CÓPULA NO FIM DOS TEMPOS DESDE O PRINCÍPIO, O ZERO ABSOLUTO... O DRAGÃO ESTÁ LIVRE!!!!