quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

ipês e koyanisqatsi

10/09/2008

E a cidade está tomada de ipês rosa, daquele rosa claro que eu mais gosto. Também tem daquele rosa mais escuro, mas eu não sei se aquelas árvores também são ipês. Do branco, só vi uma perto da minha casa em uma rua transversal, ela estava linda, feito noiva virgem do interior. Passei por lá todos os dias enquanto ela estava florida com minha bicicleta, só para olhar de baixo pra cima o contraste das flores brancas contra o céu azul da minha linda, mas seca cidade, onde não chove há tempos... e quando começar a chover posso imaginar o estrago que será.
Mas hoje deitei depois do almoço, fiz a siesta e me veio a sensação de verão, aquela sensação de calor misturado com o frescor após a chuva e eu me senti em Barra Nova, quando dormia depois de comer, depois de passar horas debaixo do sol, nadando e catando mexilhões e o corpo banhado, ventilador ligado, o barulho da chuva vespertina lá longe, o sexo e o sono... embora meu companheiro daqueles tempos parecesse só gostar de sexo à noite antes de dormir e perdia grandes lances, é claro... mas tiveram outros verões, outras praias, outras chuvas e outros caras e outros ainda virão, ou não, mas o verão sim, ele eu já pressinto...
Mas comecei pelo ipê porque descobri que o ipê amarelo é uma árvore mágica por um amigo, agora do lado de lá do embate, mas ainda do lado de cá, talvez sempre, talvez nunca. Mais um encontro improvável na cidade maravilhosa, antes em Copacabana, agora na Lapa e dessa vez foi quase como um descarrego, um despacho, um exorcismo, embora já não estivesse há muito tempo dentro de mim e eu não consiga mais reconhecer aquela saskia de quatro anos atrás... foi estranho, foi bem estranho e eu queria saber porque eu tive a impressão que você queria me machucar... e olha que não sou mais a mesma masoquista sentimental de outros tempos, não mesmo... isso acabou definitivamente e realmente me senti absolutamente livre e vi que o resto é passado e isso é muito bom!
E estou muito obcecada por Koyanisqatsi, palavrinha hopi, vida fora de equilíbrio, vida que anseia por outra vida e não sei porque, mas eu andei pensando tanto nesse filme e olhando para ele na locadora e querendo pegá-lo para mostrar pros meus alunos e pra minha filha e revê-lo depois de tanto tempo e agora eu vejo que mexe tanto com meu espaçotempo atual... a sensação de estar na beirada, no limite, na fronteira de algo que não veio ainda e penso na minha filha e na irritação que sinto às vezes com ela e com todos ao redor e ao mesmo tempo na saudade de um tempo em que sabia que ainda era amada e mesmo assim sei que esse tempo agora é necessário e ela tem que me deixar e eu tenho que deixá-la ser livre de mim, mas é ruim e tento expulsá-la antes do fim...
E por que o bom e o belo não vem nunca e se vêm, por que demora tanto e começo acreditar que não virá mais, mas mesmo assim anseio pelo verão, pelo calor, pelos mares, ventos nordeste e saias e vestidos que usarei e por estar longe dessa vida que anseia outra vida e talvez um dia quando olhar pra trás eu possa me lembrar de um tempo em que ansiava por outro tempo, me lembrar de uma saskia que ansiava por ser outra e me lembrar do ipê amarelo que fica em frente à porta da minha casa e que quando ia ao quintal eu olhava pra ele e criava coragem e força ao perceber o quanto ele lutava para se tornar grande e alcançar o sol escondido pela outra árvore grande que toma conta da calçada em frente e este ano, meu ipê amarelo ainda não floriu, talvez não tenha mesmo que dar flores afora... não sei nada das florações das espécies, só aquilo que vejo quando rodo por aí de bicicleta ou de ônibus... mas espero pelas suas flores, que elas venham como o verão e por enquanto vou ouvindo a trilha de Koyanisqatsi em seu minimalismo espiralar e esperando, só esperando...

eclipse e ondas em slow às 3 da manhã ouvindo beirut

O eclipse, eu vi o eclipse e vi e ouvi coisas de além mar, músicas portuguesas e dos Bálcãs e pensei que só se vive uma vez e o resto é sobrevida e tentei inventar um motivo, um desejo de viver e continuar no planeta até a morte tantas vezes anunciada.
E o meu homem gostou do que escrevi e eu continuo sem saber muito bem porque, andando pelos planaltos e planícies do Brasil ando mesmo com ânsia de chegar ao Índico ancestral do outro lado da ancestral África... ouvindo o fado que me formatou portuguesa morena moura que veio dar às praias capixabas e sabe lá porque estou viva às três da manhã com uma caixa preta ouvindo beirut e tendo que responder a tanta coisa sendo que não sei resposta alguma sobre nada, nem sobre meu exílio voluntário em noite de eclipse...
E por que será que os eclipses sempre são em noites de lua cheia?
E por que as ondas são sempre em slow?
Ninguém responde, nem eu, é claro...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

vento andino e a barriga da dani...

11/12 – 6:30h – chapada dos guimarães

no meio do Brasil, no centro de latinoamerica... vento andino e miragens e nuvens raspando a cabeça e cachaça e sinuca e amiga de 20 ans e cineasta profeta e o mirante de onde vimos o ancestral leito do mar interior e os paredões... estamos sobre a muralha e de cá temos como horizonte a cordilheira... e o cinema cresce como cresce a barriga da dani... e o sexo é bom e intenso e eu não sei onde isso vai dar mas agora já é... e tudo deve ser relativo aos bons costumes do lugar...
E tem um personal exu na minha vida e o tsunami anunciado aconteceu e virou tudo de pernas de bailarina pro ar e ando tonta com o coração a disparar...

confederação intergaláctica e clarice em salvador

22/10/2008 – AEROPORTO DE BSB – VOLTANDO PRA VITÓRIA DE SALVADOR... DE NOVO

acho que só vou começar a entender o que está acontecendo agora, daqui a algum tempo, mas sei que as mudanças tão esperadas tanto tempo começaram e estão com seu curso em movimento já desenfreado pelo universo, as forças puxam minhas forças com seu vórtice, como o duto, o buraco de minhoca, a confederação intergaláctica atuando, o buraco negro e eu no meio do furacão quântico com amigos e pontos luminosos se tocando pelo planeta...
ainda não sei de nada mas a bahia e sua magia poderosa me arrancaram do chão, mas me plugaram à terra e continua o fluxo desembestado das partículas.
e é difícil entender ou lembrar mesmo o que se passou no espaçotempo comprimido em seis dias alucinantes a alucinados em que mais de um ano parece se sobrepor em camadas de sentido e não sentido ou direção e os orixás abençoaram e glecyara bruxa cósmica se desfez em espirais entrelaçadas
e fui clarice lispector de vestido branco e conheci o comércio e a praça da mão e dessa vez a bebedeira nem foi insana e fomos de novo no rio vermelho com carla que mudou de santo e comi acarajé reverentemente mas dormi cedo todos os dias menos a última noite pois ainda comi sanduíche de quarto solitário depois que a amiga irmã foi embora e ela me levou pra jantar na noite véspera do meu aniversário no japa e depois fomos a santo antônio festejar na varanda do bar com vista pra baía de todos os santos e conheci ainda outro capixaba que também aniversaria no dia 19, dia do sol e eu nunca tinha percebido isso, quanta luz no meu caminho/destino e eu só agradecia os presentes que acho são merecidos, hoje acho, sem culpa ou medo, considero que estou pronta pro vôo pois sei que já estou nele
e teve mesa grande na varanda e até parabéns com claudino, outro bruxo das terras do espírito santo, único capixaba legítimo e nesse dia, como disse carla, assisti o evento diário do sol se pondo no atlântico no porto da barra, pois na bahia até o por do sol é um evento e merece ser aplaudido com trilha sonora de tambores e corpos negros erigidos ao prazer dançando sua dança infernal dionisíaca e vagabunda...
e mergulhei meus últimos mergulhos dos meus 43 anos no mar de yemanjá e no dia seguinte um carro cheio de capixabas zarpou pra stella e banhei meu corpo e meus desejos nas primeiras águas dos meus 44 anos e agradeci novamente e todos choramos de emoção e beleza e embriaguez da cerveja tomada o dia todo ao sol e cantamos músicas aos berros e claudino quase perdeu o vôo e eu e carla comemos pizza e dormimos e ela foi embora antes do sol nascer
e como profetizado pelo i ching e tarô não rolou nenhum encontro romântico e nem acredito que houvesse desejo pra isso pois o encontro foi o coletivo foi o cinema foi a beleza das idéias materializadas em imagens e sons filosofia e poesia nas narrativas do real

o inútil ciclo

o que mais uma vez acontece que não me deixa dormir...
o que mais uma vez acontece que me empurra para uma viagem cega no tempo
o que mais uma vez acontece que me faz sonhar inutilmente com alguém que não é real
o que mais uma vez me leva a querer interromper o ciclo de morte vida e ressurreição
o que mais uma vez acontece que me faz finalmente ver que tenho que ir embora, migrar como pensei na rua em frente ao hotel em Atibaia e ainda tinha esperanças ou não
talvez apenas imaginasse
depois de tanto tempo acho mais fácil não acreditar em nada, nem em mim mesma

SALA VAZIA TELEFONE MUDO

E VEJO UMA SALA VAZIA ONDE SÓ HÁ UM TELEFONE QUE NUNCA TOCA
E VEJO UMA SALA VAZIA ONDE SÓ HÁ UM TELEFONE QUE TOCA,
MAS NÃO HÁ NINGUÉM PARA ATENDER
E O VENTO MUDOU
E HOJE TODOS SAIRAM UMA HORA MAIS TARDE
OU MAIS CEDO
OU EU ESTAVA FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO COMUM ONDE TODOS ANDAVAM E PEDALAVAM E CIRCULAVAM SUAS DORES E DESEJOS
E AS ÁRVORES DO MEU BAIRRO PERDEM ESPAÇO PARA OS PRÉDIOS
E EU ME EXIBO PROS PEDREIROS QUE CONSTRÓEM MAIS UM EDIFÍCIO NA MINHA RUA
TIRO AS MÃOS DO GUIDÃO E IMAGINO O DIA EM QUE CAIREI
E ELES VÃO RIR
MAS HAVERÁ AQUELE QUE GOSTA MAIS DE MIM E TERÁ COMPAIXÃO,
VAI MISTURAR SUA PAIXÃO COM A MULHER EXIBIDA DE BICICLETA E A SUA COTIDIANA SOLIDÃO MATINAL
E OS IPÊS JÁ COMEÇAM A PERDER SUAS FLORES, DESDE OS ROXOS, OS ROSAS, PASSANDO PELOS AMARELOS E ATÉ AQUELE LINDO COM FLORES BRANCAS QUE ME FAZIA SONHAR QUANDO PASSAVA POR ELE TODAS AS MANHÃS INVERNAIS TROPICAIS E AZUIS CLARAS CRISTALINAS TRANSPARENTES
E O VENTO FRIO PENETRANDO PELAS NARINAS E ME FAZENDO DESEJAR DEIXAR ESSA ILHA PRA SEMPRE
OU TALVEZ SÓ A CHANCE DE UM TEMPO NOVO EM UM NOVO LUGAR QUE EU POSSA CHAMAR DE MEU E UM AMOR QUE SEJA REAL, NÃO OS INVENTADOS QUE TIVE NOS ÚLTIMOS TEMPOS E QUE NÃO SATISFAZEM NADA DE NADA, NEM TAMPAM O BURACO CINZENTO DA EXISTÊNCIA DOMESTICADA QUE TENHO ARRASTADO FEITO CORRENTES EM CASA MAL ASSOMBRADA DE FILME DE TERROR TRASH...
E NESSE INVERNO A PEQUENA IPÊ EM FRENTE AO MEU PORTÃO QUE LUTA PELO SOL COM A ÁRVORE MAIOR AINDA NÃO FLORIU,
TALVEZ ESTEJA CANSADA COMO EU DE ESPERAR A VIDA VAZAR OU O TELEFONE TOCAR...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

longe demais



26/10/2007

Ou o perto... felicidade possível.

Eles estavam ali há horas conversando na semi-obscuridade do quarto, as pontas acesas dos cigarros de filtro amarelo se animavam vez por outra e iluminavam pequenos pedaços dos seus rostos.

Ela deitada nua, olhava pra silhueta dele tentando imaginar seus traços, definir sua expressão quando ele puxava a fumaça e a brasa se animava, mas só podia vislumbrar o brilho refletido nos seus olhos.

Estava ali brincando com essas imagens enquanto ele falava, satisfeita depois do gozo, tentando adivinhar o significado oculto no que ele dizia, no que os dois diziam.

O universo havia parado a sua dança imutável e aquela casa suspensa no topo do mundo, aquele quarto pequeno e escuro, aquecido pelo fogão à lenha da cozinha ao lado, era o último lugar que existia, pelo menos era o que ela imaginava naquele momento, trancada ali com ele, satisfeita... muito satisfeita.

Às vezes ele olhava pra ela e tentava entender, enquanto falava, falava pra tentar entender tudo que vinha acontecendo com os dois até aquele dia, até aquela hora. Na escuridão, ele adivinhava, via seus traços com a mente, ela deitada, seu corpo quente, agora quente, as cobertas espalhadas, seu sorriso, os olhos, o corpo magro que ele havia comido... cada pedaço, apertado, mordido, seus cabelos que ele havia puxado, deixando ela sem ar sob o seu peso.

Sexo bom, sempre bom. Parecia que tinham se visto ontem mesmo e que a distância, o espaço e o tempo não existiam. Com ela podia ser, falar, fazer o que quisesse, ele sabia que ela agüentava, gostava de tudo o que ele pudesse inventar e agora ele não mais se assustava com a sua entrega total, com a sua capacidade de ultrapassar limites.

Ela se cobriu um pouco, seu corpo começava a esfriar. Ele acariciava sua coxa e fumava. Tudo tão familiar, seus gestos, seus movimentos no escuro, a forma como ele tomava seu corpo pra ele, pressionava... quase tortura, quase dor, tudo na fronteira. O homem e a mulher...

Para ela, agora não importava mais o que acontecia fora dali, porque neste momento, no agora, a felicidade era possível, aprendeu a viver com a felicidade possível, sem se distanciar do presente, sem planos pro futuro. Ou sempre havia sido assim...

O sexo, a arena onde ela se jogava inteira, com todos os seus poros, pêlos, buracos e volumes, líquidos e suores, cheiros e sangue. Pulsação da pele contra a pele e nada mais. Como que uma impossível metamorfose transformasse, fizesse a fusão impossível de homem e mulher. Como se os dois corpos se moldassem molecularmente em um novo ser, por um segundo, quando o universo explodia em gozo e se fragmentava em partículas. Quando ela podia ser e deixar de existir, se misturar ao magma, ao princípio e fim de tudo.

E então, aquela paz... O escuro, o silêncio, pontuado pelas palavras calmas, a respiração, a sensação de calor emanando da pele do outro, o coração se aquietando enquanto as brasas iluminam fragmentos de pele e brilham nos olhos lambidos do gozo...

noites botocudas











foto de carla osório
caparaó - muniz freire - 2008

Só um verso, só uma prosa... poética, porra
!
Imploro, pergunto, berro, clamo ao acaso, pois ao outro não ouso, afinal não me vejo filha do pai barbado e eterno sentado em seu trono esplêndido e sem mácula.

Então grito por um tijolo que me atinja, uma idéia pesada que me acerte em cheio a testa metida a besta e ateste que desta cachola sem miolos ainda saem palavras cruas para serem queimadas no fogo dos palcos da inútil guerra da barbárie cotidiana.

Mas talvez deva gritar a ela, à fêmea universal, já que vim de lá, desci de lá, da montanha.
Rolei da pedra, fui expulsa do seu nicho incandescente e úmido. Pedra eterna, perene mentira, pois não há nada que não fluxo, poeira de estrelas que o vento e a água, ou as palavras e o sexo não criem e recriem em eterna mutação, estranho e perpétuo movimento de ficção de mim no mundo do mundo em mim.

E se ontem dancei forró húngaro, hoje me encanto com violões ibéricos em uma pedra de paragens portuguesas em uma baía recortada em vigas modernistas de aço e prostitutas e marinheiros e vagabundos e pontos de ônibus lotados no caos contemporâneo das cidades, mesmo as mais provincianas.

E depois um cineminha e um showzinho logo ali em uma caverninha enfumaçada, um rock estrondoso de moleques bárbaros tupiniquins elegantes botocudos guerrilheiros.
E se já ouvi e bailei valsas francesas e abri os olhos com histórias de terror boliviano...

Afinal donde estás latinoamérica?

E tomei cachaça lissérgica e fiquei bêbada com noites encantadas ao lado do fogão de lenha... e dancei danças fáunicas com criaturas satíricas e gargalhei gargalhadas anárquicas só pelo prazer e horror de estar viva sobre a pedra.

E se ontem havia muçulmanas e quase nossa senhora e um quase pai, hoje já não há nada das duas sombras andando de braços dados na noite fria, nem o som selvagem dos dois erês alucinados entregues a tão intensa e extravagante e genuína guerra de corpos.

E amanhã pode haver nada, nem nossa insone poesia no espaço, sem rima ou sentido, nem nossa dança funesta sobre o planeta, nem planeta, pois o tal sujeito de barba, esse nunca foi e já não é há muito e somos todos destinos de estrelas vagabundas a brilhar por instantes digitais em cavernas de Jucutuquara ou São Paulo ou Berlim, ou Cotaxé, ou Caparaó, que seja...

Bebamos então a isso com os deuses e deusas que somos ao inventarmos eternamente a ficção de sermos e estarmos e existirmos no universo que gira surdo e indiferente dentro e ao redor como dança de estrelas, como poeira estelar...

Poeira

caparaó - patrimônio da penha - 2007

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

OSSO

















14/09/06
ando roendo os ossos
e descascando as feridas
só pra ver se ainda dói
se ainda sangra
se ainda sinto
qualquer coisa que me mostre viva
que me aponte pistas
pra que meu coração
deságüe seu fluxo errante
em algum cais
inseguro da vertigem
do amor
sempre impossível
realizar o sonho
mais impossível mesmo suportar
essa aridez
esse deserto
que enche minha boca de nada
e arranha meus olhos
com a cinza do vazio
inunda meu ventre
com o não vento
de abismos seculares
Olho em volta...
só palavras
e os segundos eternos escorrem
nas paredes desse não lugar ancestral
que se transformou no não ser
que desajeitada tento enfaixar
os fragmentos dessa ilusão nauseada
em vão nomeada EU

terça-feira, 26 de agosto de 2008

crônica carioca 4


















12/06/07 - INDO EMBORA
Cidade entre a culpa e a redenção.
A entrega desmedida à vida que rasga suas veias, do mar até suas montanhas cegas aos seus conflitos, seus barracos de alvenaria pendurados como brincos de um cristo indiferente como indiferente aos seus apelos são os homens...
Mas mesmo assim, tu és tão bela, mesmo com tuas águas podres e a névoa seca que tinge o céu da tarde de cinza amarronzado e suja suas fachadas néo-clássicas, art nouveaux ou belle époque, tanto faz...
Linda dama decadente que ainda tenta se equilibrar nos saltos de passista de escola de samba pelas suas avenidas bêbadas e ladeiras de Santa, onde os meninos e as meninas nada santos descem a rebolar e sacudir suas rasta-cabeleiras, na esperança vã de que o nome do cristo não seja só um nome e que um dia, corações iluminados, essa humanidade corroída, próxima ao fim, alcance enfim a redenção...
Mas dessa vez eu não tive nenhum medo da cidade.
Tudo mudou e andei solta demais por suas ruas, pois já sou livre e não reclamo mais a redenção.

Um brinde a incerteza então, com um chope gelado na Lapa!

Até a próxima...

crônica carioca 3...

















11/06/07 CRÔNICA CARIOCA 3

Já que eu posso e sei que sim, depois que dois ou três amores me disseram que sim e, ouvindo Muse, agora eu sei que sim, pois meu filme termina seu longo processo e eu danço seminua em frente ao espelho no meu quarto em Santa Teresa.
Eu sei que posso, então estou feliz. Termino uma fase que foi de amor, alegria e dor e, de agora em diante, eu não sei mais.
Sei que meu cabelo é mais curto e que tenho mais alguns anos e mais alguns desejos e objetivos talvez absurdos, mas finalmente me sinto livre bastante para voar pro inferno, pro céu, ou pro absoluto inexistente de mim mesma.
Faço hoje meu pacto comigo mesma nessa noite quente de outono no Rio e amanhã... quem sabe?

Acabou...

Tudo muda de agora em diante: 00:00:00 – 12/06/07.

crônica carioca 2 - dos encontros etílicos, improváveis e absurdos.

















10/06/07 CRÔNICA CARIOCA 2

E agora um Rio diferente, um Rio de ladeiras onde me equilibrei na ginga emprestada do carioca...
Só não vou puxar o “s” que acho feio demais, mas redescubro um Rio diferente - embora um professor sempre me tenha dito que não se redescobre nada, pois cada redescoberta é apenas a descoberta atual de algo que estava coberto, portanto o movimento é sempre uma atualização da descoberta e não o da redescoberta - mas como o texto é meu, e quero dar a sensação da memória sendo ativada, eu redescubro um Rio de infância nas ruas da Lapa, hoje diferente com seus botecos, chopes e espartanos, não os 300 como no filme, mas os performáticos na noite zonza com os beijos ao lado da banca de revistas.
E mais chopes, cotovelos apoiados no tamborete da Taberna do Juca, depois de muitas Originais na santa...
E a mão na mão no taxi descendo pros inferninhos domesticados da Lapa e pro sexo no apartamento que eu sinceramente não me lembro mesmo onde fica.
E foram poucos dias, mas acho que me reinventei (olha o re aí de novo), como Bob Dylan e Robert Jonhson na encruzilhada do acaso, no encontro improvável da ciência, filosofia, arte, cinema, rock, beats, sambas não idos, comida árabe e álcool, muito álcool e sexo, muito sexo troglodita, selvagem, punk e taradinha...
A pele branca e a morena e a diversão que de tão leve e prazerosa chega a ser absurda como tudo me pareceu na virilidade desse esbarrão cósmico, mas não místico.
E foi tudo muito bom, mesmo com a lei de murphy cinematográfica do ensaio de orquestra onde acho que sou maestra, mas que ao olhar pro infinito só posso me quedar estupefata em perplexidade diante do universo e seu mutismo frente minha condição humana inventada através dos séculos sobre meu sexo, agora finalmente livre.
E ainda teve Paquetá e a barca, o neutrino e modelos que ora explicam e ora formatam e criam a realidade e nós mesmos.
Teve exposição de fotografias e amigos capixabas no bar do Serafim em Laranjeiras. Bar com nome de outro amigo capixaba, quase físico, quase cineasta, que me ligou pra avisar da morte do irmão da aninha, que finalmente desligou o fio de dor.
E comi tanta porcaria que acho que engordei, mas as ladeiras salvaram minhas pernas e acho que um certo amigo capixaba gostou da pegada, porque eu posso dizer que gostei e muito.
E teve também Foucault e Deleuze e Nietzsche anticristo chutando os padres pra fora e o Gabriel Garcia Marquez pra filha e o livro de cinema pra mim e os docinhos à tarde e o cineasta chato, ressentido, uma folha seca do passado, me irritando com sua prolixidade...
Como é difícil estar vivo tanto tempo na Terra e o que será que o futuro, o devir e as minhas escolhas sobre o acaso me reservam?
E agora eu quero ir pra casa. Depois que tive que sair, pois não agüentava mais essa casa que não é minha. E fui comer no bar do Gomes em Santa Teresa. Comi um sanduíche de pernil em dois pedaços com três chopes e quatro cigarros, depois que o dono da casa fritou bife empesteando o ambiente e nem me ofereceu e fiquei observando as pessoas do bar e não tive vontade de falar com ninguém que estava lá e nem de ligar pra ninguém. Achei que faltava a tal da virilidade e ri sozinha e paguei e voltei pro meu quarto-cela e agora estou louca pra ver televisão...
E sei que ultrapassei mais uma fronteira com essa viagem ao Rio, com o filme desse processo.
Nunca me senti tão livre em toda a minha vida. Livre e pronta pro mundo e pras minhas novas escolhas, novos lugares e novas pessoas.
Algo se anuncia, quase uma alvorada-amanhecer de Saskia.
Como estar na beira do universo, do planeta, do abismo de mim, sabendo que não importa mais quem sou ou se isso não existe... e no lado de dentro só há ossos, músculos e sangue e a dança das partículas.
Me entrego então ao infinito Fora e sinto como se o universo se dilatasse e contraísse em um novo big bang infernal...
E tudo bem que é legal andar pelas ladeiras ao sol da tarde outonal, mas ando com uma saudade louca de pedalar minha bicicleta pelas calçadas de Camburi no suave sol da manhã capixaba ouvindo minha trilha sonora, cabelo ao vento, suor grudando no corpo exigido ao máximo e a alegria limítrofe da velocidade pregada no meu rosto insano e eu juro que não quero “ride my bike” – piadinha particular...

sábado, 2 de agosto de 2008

crônica carioca 1 - do improvável e do absurdo














foto-still - de Rodrigo - do meu filme "A fuga"

04/06/07

Então, to no Rio...

E me descubro com uma puta solidão. Acho mesmo que me precipitei em ter vindo hoje e reservado a casa e tal... Mas pode ser só o estranhamento do primeiro dia no Rio depois de tantos anos sem vir pra cá ou, talvez, por estar em Santa Teresa, bairro em que nunca fiquei e me causa uma sensação de não-lugar, de excesso e exceção no tempo-espaço. Além de ter se tornado um bairro absolutamente turístico, acho que, em toda a minha vida, nunca me senti tão turista, nem quando fui realmente turista em férias pelas inúmeras praias do imenso litoral brasileiro. Talvez por estar trabalhando, o contraste com os “verdadeiros” turistas se torna um tanto absurdo.
Não dormi direito esta noite e nem tenho dormido bem na última semana, pesadelos, sonhos estranhos, suores noturnos e uma insônia excitada com a viagem e o iminente término do filme, chego aqui e fico com este tambor no peito anunciando um final apoteótico que nunca chega.
Desde o ano passado, em que quase me transformei em paulistana, quando já começava a me sentir à vontade como um peixe mutante em seus cinzentos rios-ruas, eu não viajava e agora me sinto verdadeiramente estrangeira nesta cidade prostituta.
Um medo irracional, como quase todos os medos, me ronda o tempo todo. Medo de não conseguir terminar o filme no prazo, de estar deixando coisas importantes por serem feitas em Vitória, de sofrer algum golpe de um carioca esperto... Sei lá, acho que andei acomodada na minha ilha nos últimos meses...
Talvez seja só o término desta fase, desta Saskia, ainda presa ao carma do filme e de tudo que me foi arrancado neste processo. Pode ser que amanhã as coisas estejam diferentes e estarão.
Sinto saudades da minha filha, das pessoas e dos lugares queridos e conhecidos onde circulo, saudades de algo que sei, vai mudar para sempre, como sempre se muda algo quando se viaja e se muda a perspectiva com o estranhamento da paisagem.
E tem o livro que estou lendo e que, no momento só me dá porrada filosófica, as últimas certezas desmoronando, se é que ainda as tinha.
E tem ainda a idéia para uma história: dos amigos, da explosão, da morte dos entes do passado, do vazio e do novo que não vem nunca...
Enfim, é tudo e mais um pouco e as metáforas não são mais suficientes e nem tão claras como antes de ultrapassar a última linha depois da perda da inocência, em direção ao Fora...

domingo, 27 de julho de 2008

ouço músicas e aproveito o sol












Ouço músicas desde ontem e aproveito o sol que finalmente deu as caras no meu horizonte ilhéu, embora eu more no continente, mas acho mais bacana me referir à minha ilha, à minha praia, algo assim mais cubano e beat tropical, limitado por fronteiras que me contém em mim, do que um continente inteiro pra ser explorado.

Então, pedalo pela ciclovia da minha camburi à beira mar e abstraio o seu horizonte atual de chaminés e porto e a cor cinzenta do seu mar podre e vou até a universidade e nado na piscina que fica fechada nessa época das férias e o vigia não quer me deixar entrar, mas eu o convenço a dar um mergulhinho com um sorriso bobo e simpático e acho que ele me olha de longe, a me espiar enquanto nado naquele azul turquesa com meu biquíni vermelho. E o sol brilha inclemente, como diria algum velho romance de aventuras no deserto dos anos quarenta e pinta toda a paisagem com cores duras de apunhalar os olhos vermelhos de cloro.

E eu ouço músicas... Agora mesmo ouço e vejo The Cure e amo ouvir e olhar a balofisse de Robert Smith. E ouvi músicas o dia todo, escolhendo sons pra alimentar o brinquedinho eletrônico novo, para poder ouvi-las quando for pedalar pra piscina da universidade.

E hoje ouvi Camille, uma francesa adorável que minha filha colheu por aí... Bach, Beethoven, Albinoni, Moby, Massive Attack e, como estou obcecada com cores e sons, vou passar o resto do ano catando mais climas sonoros para que se tornem minha trilha nos travellings intermináveis de bike ou de ônibus - não tenho carro e nem pretendo - pela paisagem improvável da cidade tropical calorenta, suarenta, melequenta de creme hidratante e filtro solar, 40 graus e coqueiros de plástico na praia improvável dos desejos impossíveis.

Agora, só uma câmera e novos brinquedinhos eletrônicos me satisfazem, nem sapatos, roupas, lingeries rendadas ou de algodão, brincos ou colares de diamante ou latão, ou a indefectível escova progressiva de chocolate que as peruas burras e ricas - ou nem uma coisa nem outra - usam pra tampar o buraco miserável no qual a humanidade afundou.

Mas nada disso consegue aplacar a solidão e a árida existência que faz com que eu me mova pra água e pro vento pra tentar acalmar o fogo ancestral que ainda me consome de dor e prazer, sabe deus pra quê, isso se ele existisse em sua infinita harmonia, ainda assim não daria conta de nossa falência e se mataria, enfiando-se em um buraco negro grande o bastante pra engolir com ele, toda a sua maldita criação genial chamada humanidade.

Então, é isso, vou procurar ainda umas coisas do Morphine, do Pink Floid, Joy Division, Velvet Underground (como esse nome é bom!), White Stripes, Led Zeppelin, The Doors e até Shakira, Regina Spektor e Maddona e o que mais eu conseguir reunir pra encher o meu próprio buraco negro eletrônico e me afundar na melancolia suarenta de um verão sonolento e úmido, feito uma esponja, uma alma penada portuguesa, uma tahine nostálgica e semi adormecida, enquanto espero que um vento sul poderoso, ou uma tsunami venham dar às costas do atlântico e me empurrem do alto do meu rochedo inacessível para o mais belo vôo cego e livre sem pára-quedas ou tapete voador que possam ser puxados pelas mãos incautas do acaso...

Que venha 2007!

21/12/2006

diálogos baratos, ou uma piada particular...










foto de rebecca de sá

30/09/06

Algo engraçado aconteceu hoje em meio à tempestade emocional da pré-produção da mostra, que continua com o mesmo clima, com algumas pessoas sempre com uma grande vocação para o “poder” e, por mais que elas tentem ocultar, esse “defeitinho de caráter” acaba sempre por vazar, o cheiro exala pelos poros causando um ligeiro desconforto perceptível nos olhares das pessoas mais sensíveis. Não que os outros, livres desse “defeitinho”, ou eu mesma, que também me considero arrogantemente livre desses demônios capitalistas (até certo ponto), não queiramos também o nosso bocado, mas talvez exista certo senso de perspectiva que alguns parecem ter e que outros ignoram, mais solenes do que uma missa no Vaticano.

E, sei agora que o que tem me angustiado não é bem a questão de “querer ser outro”, mas a de “não poder ser outro”...

Mas fora da esfera da mediocridade cultural, onde ultimamente nado de costas pra evitar o odor, a vida continua linda, livre e selvagem... Como sempre sem controle, com seus céus azuis e ventos nordeste trazendo o calor, o samba nos botecos, as mulheres de vestido de alça e sandália havaiana e uma esperança de verão pra minha visão distorcida que só consegue enxergar o lado bom de estar viva aqui e agora, nesse tempo e lugar e de conseguir reunir, apesar de tudo, muita gente envolvida com paixão nesse empreendimento quase kamikase...
E isso sim, é bonito de se ver e sentir, muito bonito...

Mas o engraçado que comecei a falar é uma história que não tem nada a ver com a mostra ou com minha vida atual, mas com a capacidade de ver a vida e de rir dela e de mim...
Portanto, vamos aos fatos:
Hoje, eu estava em casa, depois de chegar de uma reunião de trabalho pré-mostra, em pleno sábado de sol... - claro que paramos pra tomar umas cervejas... barzinho, fim de tarde, primavera, calor e brisa e samba maroto e freqüentadores incríveis que dariam um filme e meio cada um - e me joguei no sofá , enquanto minha filha ia pegar um filme na locadora e eu pensava no que fazer pra comer, dedo rápido no gatilho do controle remoto pro tédio televisivo não me pegar e eis que paro, sem querer, em um telefilme com todo jeitão de idiota: a cena se passa em um desses bares americanos típicos dos anos 60 (que claro, eu nunca vi ao vivo, só no cinema) com soldados americanos preparando-se para irem à guerra do Vietnã. Um deles defende a guerra e os outros riem dele cinicamente, embora não tenha nesse riso nenhuma crítica ou reflexão. Então, ele se levanta e vai, todo estufado de orgulho patriótico americano, até o balcão, pedir bebidas para a garçonete com sombras azuis, delineador e cílios postiços, maquiagem pesada sixtie nos olhos:

Ele (apontando pra mesa dos soldadinhos): “O mesmo pros meus amigos.”

Ela: “Dois whiskies e duas cervejas?”

Ele (com sorrisinho galante): “Sim e uma coca pra mim. Eu não bebo e não fumo.”

Ela (com uma expressão sedutora): “Mais alguma coisa que você não faça?”

Ele, que já estava se dirigindo à mesa com os copos nas mãos, se vira, com o olhar safado, e a frase “vou te comer” estampada na cara porca...

Então eu cortei a cena com meu dedo mágico no controle remoto e ri na minha sala solitária de sábado à noite, pensando:

“Certamente, minha história é melhor e ganharia todos os prêmios nas categorias de cenário, figurino, roteiro e elenco...”

Mas de ontem pra hoje, a vida ficou mais divertida e eu mais libriana. Até comprei vestidinhos novos, um preto de bolinhas brancas com saia esvoaçante, muito moça dos anos sessenta e outro vermelho de veludo com decote vertiginoso, nada moça...
Então estou me divertindo e quase, quase tendo um ataque de êxtase... que São Paulo me aguarde com meus vestidos novos e esta insuspeita sensação de bem aventurança que voltou a habitar meu sorriso.

Beijo grande e saudade de um encontro nosso e de diálogos mais criativos do que os que tenho encontrado na ficção e na realidade barata dos últimos tempos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

além mar













28/10/2006 – além mar

E o meu sonho feliz de cidade se dilui na sua visão de infindáveis luzes vermelhas na noite paulistana. Pareceu então que via e ouvia através de seus olhos e ouvidos enquanto me dissolvia do cansaço do dia quente pelas ruas do centro portuário da minha ilha. E escutei sua voz que me levou de volta para a sedutora cidade monstro e consigo ainda ver você imerso no caos, seu olhar, seu humor e a saudade que me faz desejar estar também no inferno céu. E eu não sei se é o monóxido, ou o constante fluxo de carros e gentes que entrou na minha visão, vício irreversível, poderoso ópio... Não sei se são seus olhos a me apresentarem essa São Paulo como fragmento de beleza e caos fascinante onde você também se mistura e, então eu leio histórias da metrópole insana que chegam através de outros olhares e o mosaico se funde em tantas cores que não consigo mais enxergar... apenas o cinza sujo com o fluxo de luzes brancas e vermelhas, vagas impressões pelo telefone.

E então, homem peixe de uma cidade sem mar, com suas caudalosas ruas repletas de fartos cardumes vermelhos que não cessam de brilhar e fluir e seguir em noturno negror fantasmagórico, em mitos e lendas e histórias que tenho que ler e entender em tão pouco tempo. E descubro que é impossível passar incólume pela metrópole, onde se arrastam os vagabundos e os desesperados, onde esbarro na desesperança dos deserdados, miseráveis ajoelhados à beira de suas avenidas a implorar, a buscar algo que ninguém sabe, para sempre perdido nos seus labirintos emboscada para incautos como eu mesma. E tal qual narciso às avessas, sem conseguir ver meu reflexo no ventre negro dos rios turvos da cidade dos milhões de diabos velozes das noites alcoólicas de Sábado.

E o Camões libertário nunca lido, mas reverentemente escutado no apartamento madrugada adentro em conversa insone e ainda bem que você não se importa com meu cigarro e eu às vezes invejo sua persistência e disciplina em não abrir mão de você, seja lá o que isso for e eu sempre deságuo tudo...

E na estrada em mais uma viagem em que levo histórias de São Paulo para ler e misturo com a paisagem de céu vasto e múltiplo de azuis, cinzas e brancos... e as pedras do Espírito Santo, as mangueiras, as bananeiras, os coqueiros pálidos e as casas de tijolo, de madeira e aquela laranja fluorescente contra o cinza tenebroso prenúncio de tempestade anunciada no caminho veloz e me lembro de novo de Camões e de todos os poetas esquecidos ou não lidos. Quanto tempo tenho ainda para ler e criar e pintar e escrever e filmar e viver uma nova vida uma nova cidade uma nova eu e um novo você?

E então Zé Ramalho no som do carro, CD do motorista, trilha sonora da minha viagem até o porto antigo, quero ver o por do sol no antigo Cricaré, rio de negros, praça de casarios e história.

E o calor e o vestido preto, sandália baixa de couro, cor de couro e a África e o norte e o rumo e a Grécia e os deuses de um lado e do outro do ancestral continente separado e novamente reunido e as incontáveis diásporas ao redor do mundo e os novos muros e a sensação de tragédia iminente e o calor e a sensação de oráculo e premonição e a saudade que me vem em ondas de vento quente de um homem peixe com olhos verdes como se infindáveis léguas estivessem a nos separar e eu, a portuguesa de preto no porto estivesse a cantar um fado nostálgico das terras de além mar...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

ilhas

VITÓRIA, 28/08/06.

Fiquei doente hoje, na verdade eu quis ficar doente hoje. Dormi até tarde e dormi de novo depois de tarde... muitas horas de sono pra não pensar em mais nada, pra exorcizar toda a intensidade e toda a insanidade dos últimos dias. Insanidade das pessoas, das discussões, das vaidades, da cidade e do seu ar seco que me fez sangrar o nariz, que me fez a boca seca e da sua velocidade, da sua quantidade absurda de tudo: de gente, de carro, de palavras escritas e faladas, palavras demais, importância de menos.

Só não vi filmes, como sempre, mas ouvi muito e evitei falar demais. Mas é tudo demais, overdose destruidora e então, hoje, resolvi ficar doente e ouvir a chuva abençoada que caiu na cidade ilha onde moro por enquanto.

Mas não senti mais o estranhamento que sempre sentia em São Paulo, não me senti afogando no seu ar seco e marrom e, quando olhava pro seu horizonte entrecortado e vertical, o único susto que levei foi o de não mais me assustar. E isso é mais assustador e mais estranho do que qualquer estranhamento que pudesse me assaltar...

E acho que aprendi um pouco mais da arte de arrumar malas e até um pouco da de carregar malas e um pouquinho também da difícil arte de tentar não ser mala, pesada, empacotada e carregada por qualquer mão descuidada.

E fui feliz um pouco em um certo apartamento, onde fui agradavelmente surpreendida por um calor delicado e uma quietude cortada por risos e conversas suaves e prazeres sem pressa em uma ilha de calmaria cercada pela loucura da cidade e da política cinematográfica...

Então, amanhã estarei curada novamente e partirei pra minha própria loucura da minha própria cidade.
Mas ainda é hoje e me permito um instante de silêncio e recordações escolhidas no meio do caos dos últimos dias.


segunda-feira, 26 de maio de 2008

e só choveu











18/09/06 – E só choveu...

E choveu e choveu muito...
E ainda hoje manhãzinha caminhei na areia dos sonhos na praia limiar entre o caminho percorrido e os pesadelos da descrença...

E o sol fora da proteção frágil dos meus coreanos ray ban queimava meus olhos como bafo de dragão quando eu tentava em vão olhar dentro da impossibilidade da minha existência abrindo um portal na entrada da gruta onde uma força ancestral mostrava sua mão estendida com uma pequena caixa negra na qual ainda não pude olhar mesmo sabendo que já sei a resposta... sempre soube...

E embora na minha visão fosse noite e fora o dia queimasse e insistisse a secura que oprime o peito e faz sangrar o nariz e pensasse em você quando olhei o mar novamente e as cores então me pareceram mais suaves em cinzas doces com pinceladas de prata líquido e branco leite...

E pensei “vai chover” com a dor em todas as cicatrizes me avisando e andei pra casa mais aliviada e então choveu e choveu muito com o céu passando de impressionista pra expressionista e o cinza esmaecido tingindo-se de chumbo quase negror da noite...

E eu como boa mãe que sou mandei minha filha levar guarda-chuva
e ela como boa filha que é disse que preferia tomar banho de chuva
e eu concordei porque eu também assim o prefiro...

E senti assim o cheiro das primeiras grossas gotas caindo no asfalto quente e seco...

E pensei em você em São Paulo cidade terrorista e em como deve ser difícil sobreviver no ventre do monstro antropofágico da metrópole que engole os sonhos e a capacidade de crer em miragens tendo um não horizonte a orientar seus rumos...

E me deu saudade da quietude de um esconderijo bem no meio da barriga da fera em uma rua com nome de santo e uma sala com um lustre feio porque ali houve algo como um encontro de refugiados em um campo seguro mesmo que depois a guerra cotidiana nos tenha levado pras nossas insuperáveis solidões nauseadas pelo balanço das marolas pálidas das vidas invisíveis no vasto caos do universo...

E senti saudade mesmo pressentindo que o medo ainda vai me roubar a possibilidade do encontro e talvez então o vazio e o silêncio sejam minhas únicas respostas...

E senti saudades e imaginei você por aqui e quis que você soubesse enquanto a chuva caia doce e estrepitosamente sobre o pequeno jardim caótico na frente da minha janela desanimada tingindo o mundo de cinza cálido cor de água no asfalto da tarde molhada...

E o manto de calmaria
e o cheiro de nostalgia
em pleno setembro quase outubro quase primavera...

E dessa vez não ventou na minha ilha... só choveu.

foto de rebecca de sá

sábado, 24 de maio de 2008

na rede











me recupero do excesso e da falta...
ontem era um zumbi semi morto...
hoje a vida volta pros meus olhos e a cor pro meu rosto...
no ponto do ônibus volto a olhar o mundo e sempre me surpreendo em como gosto de ver as pessoas, mesmo o homem chato que fala sem parar com o vendedor de vale-transporte sentado em uma mesinha descascada de metal amarelo e que evita olhar pro homem chato...
entro no ônibus e me desligo...
olho em travelling a paisagem de inverno da minha feia bonita praia de camburi,
suas castanheiras em pinceladas grossas impressionistas, como se vistas por detrás de uma janela de vidro molhado, em cores que vão do verde escuro ao vermelho intenso, passando por uma cor de fogo vivo sobre o céu azul...
no movimento do ônibus, eu vou e elas vêm, seus galhos, estruturas trançadas como os fios da memória de nossos três últimos dias, que agora tento tecer em uma vã tapeçaria delirante de penélope que espera, sempre espera...
do outro lado pessoas dormem na calçada em frente a um bar fechado...
meninas rebolam e os gringos olham...
percebo então que a voz, zumbido constante na minha mente, era só o cara chato que agora perturba o cobrador com cara de poucos amigos ou nenhum, olhar vidrado no horizonte quadrado de sua janela de cobrador...
entra uma perua com sua bolsa mondrian de vinil brilhante, saida de algum filme de ficção científica da década de 60 e outra passa na roleta, morena bonita e gostosa com uma blusa de rede branca que me arremessa para outras redes na pesca da minha memória insana, as redes da exibição em rede e na rede... o arcaico e a tecnologia... a invenção da eletricidade...
os vários caminhos da imagem e da memória... daqueles que amam fazer, amam mostrar,
amam estar juntos na celebração coletiva da criação humana...
e nós dois no mesmo balanço dessa rede imaginária tecendo o fio da memória e do encanto,
do futuro e do passado... nos amando embalados por sonhos de rede branca...
adormecidos enroscados como filhote de bichomanso,
que só quer carinho de mãe pra todo mundo ser feliz na grande rede colorida da humanidade...

beijos em rede

15/07/04

segunda-feira, 19 de maio de 2008

eu ando de bicicleta













eu ando de bicileta...
e queria coragem para surfar...

Andar de bicicleta é um ato de equilíbrio e liberdade.
Muitas variáveis podem me desequilibrar e me jogar ao chão e eu quero ter o controle do espaço e do tempo.

Minha vida é cheia de “ses” e eu vivo tentando me livrar deles

Mas tenho que esvaziar a mente para que o caminho me escolha e eu não seja atolada em mais um “se”...
E quando ando de bicicleta tento me soltar da visão de cineasta, do travelling, da visão objetiva e entrar no quadro...

Então, algumas vezes acontece quando sinto o vento, as pernas doendo, ouço o som e sinto a chuva e solto as mãos...

Embora o pensamento esteja trabalhando o tempo todo com as metáforas em que me comunico comigo mesma, pois se não, a sensação não se transforma em percepção que não se transforma em aprendizagem, que não se transforma em conhecimento e blá blá blá...

Então não ultrapasso o tapete bordado que recobre o real...

E pedalo na Internet e vagueio pelo espaço virtual, mas não é por ali que a experiência acontece,
mas as reações em camadas, as texturas e as relações criam realmente um espaço-tempo diferente e eu estou lá, como quando da minha relação espaço-temporal enquanto ando de bicicleta...

Não é possível ficar pensando, nem me separar da bicicleta, do asfalto, do ar ao redor, as pernas que não são minhas, pois não as possuo, sou estas pernas e o movimento que interage com tudo ao redor e dentro...

A espiral...

Nesse momento sou criada pelo movimento e crio com ele, com a totalidade ao redor e a realidade que se move junto comigo...

sábado, 17 de maio de 2008

to aqui

e espero o dia amanhecer, fazer o que?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

rio claro

1º de maio de 2004

violão, sexo, passeio no parque...
discussões e reuniões intermináveis
e fugas pro sol
e migrações por camas e quartos
e o mesmo doce homem forte
que me dá flores e me come e me conta histórias e me canta músicas
histórias de cinema, de romance e guerra
surto com o fumo, descompasso passo a passo resolvido
assim como as picuinhas políticas e os dinossauros
os cariocas, os paulistas, os mineiros, os bahianos, os cearenses, os gauchos e os capixabas

são paulo e eclipse

07/05/2004 - 17:40:11

Detesto São Paulo!
Simples assim, como quem detesta um cheiro, uma comida, algo que não engole.
A sensação de pequeneza...
A velocidade insana e absurda de viver na superfície e no limite da vida.
Ao mesmo tempo amo me diluir no mar de rostos que esbarram no meu olhar...
A grandeza e a miudeza das vidas que não significam nada no grande mar que é São Paulo.

Acabaria me acostumando em viver lá,
mas detestaria me acostumar com isso...
Com a sensação de falta de realidade, de estar presa, amarrada, sem futuro, nem passado...
Folha úmida caída na calçada, pisoteada pelos sapatos de griffe da vã modernidade
de um mundo que já morreu e ainda não sabe...

O nada, o horror, a náusea, a boca seca e o coração apertado...

Cansada o bastante pra querer voltar pra casa, seja lá onde for o lugar, que eu possa um dia chamar de casa...
Cansada o bastante para me sentir diminuída, perdida no vácuo da grande cidade,
que não me compreende e não quero compreender.

A aeronave decolou e vi São Paulo ficando pequena no quadro da janela.

Adeus São Paulo...
Cidade oceano, com seus prédios, casas, história e histórias...
Suas ruas/rios... que em vez de peixes, dão carros e ônibus e gentes em penca.

Então o eclipse da Lua...
E eu, vestida de preto e roxo litúrgico...
A turbulência e o Sol indo do outro lado...
A música no head phone e uma emoção insana crescendo e me engolindo...

Então as nuvens macias, azuis... abrindo pra minha cidadela iluminada,
minha ilha de luz incrustada no oceano negro...

E eu tão feliz e surtada, chorando com a cara boba grudada na janela...

sábado, 10 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 4










10/04/06 – INDO PRA FACULDADE


outro dia... outro lugar... outra viagem...

Se foi assim tão bom e o meu corpo sabe e reconhece, carrega os sinais e uma dor fina que se espalha da virilha, através dos músculos das pernas e costas e ventre, como testemunha dos excessos gososos...

Se foi assim tão bom e tão carregado de intensidade, de intimidade, de você dentro de mim...

Se foi assim tão bom...
Por que carrego o travo amargo do fim do gosto doce na boca?
Por que sinto o espinho cravado na garganta?
Por que a farpa na mente?
Por que acordei com um resto de sonho ruim em fiapos de memória ardente?

E até ontem, ainda sentia as pernas trêmulas, a carne trêmula do excesso desejado...

Por que então, acordei com o maldito “adágio” me rondando, feito nuvem, feito poeira e nevoeiro...
Cheiro de chuva e podridão, gosto de algo-vai-mal?

Por que o adágio-adaga traçando desenhos malditos na pele e o trocadilho infame que não sai da minha visão de raio-x, enquanto fecho os olhos e vejo as imagens que as palavras e os sons e as mãos deslizantes criam sobre desenhos invisíveis marcados a fogo na carne...

E por que certas palavras continuam ecoando na caixa oca da mente?

Por que acho que eu não disse o que queria e falei mais do que devia?
Por que sempre o excesso e a falta?
Por que esta vontade de chorar quando olho pro mar nesta manhã de sol gloriosa em Vitória, depois da chuva e da inundação?
Por que esta dor de espinhos de luz varando minha clarividência cega?

E por que eu só penso em uma palavra?

Depois de tudo... O maldito adágio.

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 3










09/04/06 – ÔNIBUS PRO AEROPORTO DE GUARULHOS/CHOVE.

O BICHO E O MEDO.

Sinto ainda no corpo, a memória da noite.
E o corpo tem memória...
Memória de mãos, de boca e do peso do corpo sobre o corpo.

E fecho os olhos e vejo Bariloche, que não é brega, ou tenta não ser.
E sinto cheiros que são pura lembrança e o arrepio e a pulsação, minha e sua, dentro de mim.
Abraço forte e beijos... E o calor... Quente, muito quente, como febre molhando o lençol.

E o medo...
Tenho medo, tenho pânico e sei que o medo não obedece regras, não obedece razão...
Se obedecesse, não seria medo.

E me fartei (de fartura boa) de mim e você, embora ache (agora) que não deveria tê-lo feito, sei lá...
Talvez nem ter vindo a São Paulo.

Você queria fazer confissões, eu não queria falar nada, mas agora sinto que ficou tudo engasgado em Bariloche... Será?

E eu nem sei o porquê disso tudo, destas palavras que nem são reflexão, são só um fluxo de pensamento que vem no ritmo da chuva no vidro do ônibus.
Então, “sigo o fluxo” das palavras e da memória apagada: verdade inventada.

E você foi logo falando em fazer uma “sacanagem” e eu lá, toda tímida ainda... Sei lá...
E você até tomou dois chopes e até fumou um pouco, mas ainda assim tem medo do “bicho” que ronda e pressiona, a mim também, voraz canibal de dentro pra fora, sempre na boca de sair...
E você, bicho que é, sabe que não há fuga.
Mas viver com medo do “bicho” é ainda a tortura pior, pena, punição que não tem fim.
Mas nada tanto assim, talvez só cinema e literatura.

Então, depois de falar tanto de medo, falar de outras histórias, da sua vida, outras mulheres, outros você...
Toca na sua insanidade, mas não declara, mesmo depois que eu declaro a minha insanidade.
Mas teve também orgulhosos amores de 5 anos da idade da inocência e coragem e verdade...

Mas por que será que depois de tudo, eu me senti sozinha com o meu medo na manhã seguinte?

E eu que estou nessa história de passagem por São Paulo, ainda no caminho pro aeroporto, escrevendo no ônibus e tentando esquecer da chuva que cai com força e torcendo pra conseguir embarcar hoje e fugir daqui.

E eu que sei que agora não dá pra embarcar em vôo cego de tapete voador, que você pode puxar um dia, quando o medo vier na hora da razão, em uma noite de chuva como esta.

Mas a chuva cai forte e eu estou no ônibus indo pra longe daqui.
Eu e meu medo...
Mas o tesão também foi forte, acho até que muito forte e ele vai comigo pra onde eu for e fica um pouco com você também.

E então, eu estou com medo:
Medo da chuva, de São Paulo, da vida, de você e de mim.
Medo da sua ilusão de controlar o “bicho”, como se fosse água pra canalizar, luz elétrica pra carregar nos fios dos postes da consciência...

Medo da minha aparente facilidade em seguir o fluxo...
Medo da minha aparente fragilidade ao seguir o fluxo...

E eu não gosto de forró e nem quero saber da ABD.
Eu só quero filmar e escrever e criar e sei que você também quer.

Também sei que não posso fugir de dar vida aos fantasmas que o “bicho” coloca pra mim e em mim... Eles escapam e me assombram e assombram você também.

Você já disse que meu texto é vivo e é mesmo!
E é o único jeito de me livrar dos fantasmas, ouvindo-os em noites de chuva forte e deixando-os sair em letras meio arrevesadas, mesmo que seja estranho e doloroso, confuso e do avesso.

Sem escolha e sem chance, pra mim, pra você e pra ninguém.

Talvez por saber ou nem saber, tenho andado feliz com minha vidinha besta, tenho tido uma certa bem-aventurança, beatitude, sei lá que merda de nome dar presse estado d´alma!

E é aí que o medo vem, medo que as coisas boas se quebrem, se partam, que os deuses e demônios se vinguem (e você sabe que é assim que eles se comportam) e eu perca o juízo e vá pro inferno de uma vez.

E por que eu acho, com a minha clarividência cega, que foi uma loucura ter vindo a São Paulo?

E meu corpo ainda sente você e você esteve dentro de mim e esse momento foi de prazer e perfeição...

E sinceramente, eu não estou com medo nenhum!

E, quando eu resolvo ultrapassar a linha, é sempre por minha conta e risco, é sempre porque eu quero, porque voar é melhor e mais divertido do que ficar no buraco tentando segurar o “bicho”.
Nem com toda a meditação do mundo...
Pois o que o mundo me ensinou é que quando o “bicho” quer, ele se solta e a única coisa a fazer é “seguir o fluxo”.

Então, mulher branca dos olhos verdes... Siga o fluxo...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 2










07/04/06 – BAR BRAHMA/CURITIBA.

Leminsky na parede do banheiro:

ISSO DE QUERER SER
EXATAMENTE AQUILO
QUE A GENTE É
AINDA VAI
NOS LEVAR ALÉM

Falamos do BAR BRAHMA de São Paulo.
Eu quase fui parar lá de novo, mas eu já o conhecia de outros tempos, não tão bons assim...

No dia seguinte, Clarice Lispector:

NÃO QUERO TER A TERRÍVEL LIMITAÇÃO
DE QUEM VIVE APENAS DO QUE É PASSÍVEL DE FAZER SENTIDO.
EU NÃO: EU QUERO UMA VERDADE INVENTADA.