quarta-feira, 28 de maio de 2008

ilhas

VITÓRIA, 28/08/06.

Fiquei doente hoje, na verdade eu quis ficar doente hoje. Dormi até tarde e dormi de novo depois de tarde... muitas horas de sono pra não pensar em mais nada, pra exorcizar toda a intensidade e toda a insanidade dos últimos dias. Insanidade das pessoas, das discussões, das vaidades, da cidade e do seu ar seco que me fez sangrar o nariz, que me fez a boca seca e da sua velocidade, da sua quantidade absurda de tudo: de gente, de carro, de palavras escritas e faladas, palavras demais, importância de menos.

Só não vi filmes, como sempre, mas ouvi muito e evitei falar demais. Mas é tudo demais, overdose destruidora e então, hoje, resolvi ficar doente e ouvir a chuva abençoada que caiu na cidade ilha onde moro por enquanto.

Mas não senti mais o estranhamento que sempre sentia em São Paulo, não me senti afogando no seu ar seco e marrom e, quando olhava pro seu horizonte entrecortado e vertical, o único susto que levei foi o de não mais me assustar. E isso é mais assustador e mais estranho do que qualquer estranhamento que pudesse me assaltar...

E acho que aprendi um pouco mais da arte de arrumar malas e até um pouco da de carregar malas e um pouquinho também da difícil arte de tentar não ser mala, pesada, empacotada e carregada por qualquer mão descuidada.

E fui feliz um pouco em um certo apartamento, onde fui agradavelmente surpreendida por um calor delicado e uma quietude cortada por risos e conversas suaves e prazeres sem pressa em uma ilha de calmaria cercada pela loucura da cidade e da política cinematográfica...

Então, amanhã estarei curada novamente e partirei pra minha própria loucura da minha própria cidade.
Mas ainda é hoje e me permito um instante de silêncio e recordações escolhidas no meio do caos dos últimos dias.


segunda-feira, 26 de maio de 2008

e só choveu











18/09/06 – E só choveu...

E choveu e choveu muito...
E ainda hoje manhãzinha caminhei na areia dos sonhos na praia limiar entre o caminho percorrido e os pesadelos da descrença...

E o sol fora da proteção frágil dos meus coreanos ray ban queimava meus olhos como bafo de dragão quando eu tentava em vão olhar dentro da impossibilidade da minha existência abrindo um portal na entrada da gruta onde uma força ancestral mostrava sua mão estendida com uma pequena caixa negra na qual ainda não pude olhar mesmo sabendo que já sei a resposta... sempre soube...

E embora na minha visão fosse noite e fora o dia queimasse e insistisse a secura que oprime o peito e faz sangrar o nariz e pensasse em você quando olhei o mar novamente e as cores então me pareceram mais suaves em cinzas doces com pinceladas de prata líquido e branco leite...

E pensei “vai chover” com a dor em todas as cicatrizes me avisando e andei pra casa mais aliviada e então choveu e choveu muito com o céu passando de impressionista pra expressionista e o cinza esmaecido tingindo-se de chumbo quase negror da noite...

E eu como boa mãe que sou mandei minha filha levar guarda-chuva
e ela como boa filha que é disse que preferia tomar banho de chuva
e eu concordei porque eu também assim o prefiro...

E senti assim o cheiro das primeiras grossas gotas caindo no asfalto quente e seco...

E pensei em você em São Paulo cidade terrorista e em como deve ser difícil sobreviver no ventre do monstro antropofágico da metrópole que engole os sonhos e a capacidade de crer em miragens tendo um não horizonte a orientar seus rumos...

E me deu saudade da quietude de um esconderijo bem no meio da barriga da fera em uma rua com nome de santo e uma sala com um lustre feio porque ali houve algo como um encontro de refugiados em um campo seguro mesmo que depois a guerra cotidiana nos tenha levado pras nossas insuperáveis solidões nauseadas pelo balanço das marolas pálidas das vidas invisíveis no vasto caos do universo...

E senti saudade mesmo pressentindo que o medo ainda vai me roubar a possibilidade do encontro e talvez então o vazio e o silêncio sejam minhas únicas respostas...

E senti saudades e imaginei você por aqui e quis que você soubesse enquanto a chuva caia doce e estrepitosamente sobre o pequeno jardim caótico na frente da minha janela desanimada tingindo o mundo de cinza cálido cor de água no asfalto da tarde molhada...

E o manto de calmaria
e o cheiro de nostalgia
em pleno setembro quase outubro quase primavera...

E dessa vez não ventou na minha ilha... só choveu.

foto de rebecca de sá

sábado, 24 de maio de 2008

na rede











me recupero do excesso e da falta...
ontem era um zumbi semi morto...
hoje a vida volta pros meus olhos e a cor pro meu rosto...
no ponto do ônibus volto a olhar o mundo e sempre me surpreendo em como gosto de ver as pessoas, mesmo o homem chato que fala sem parar com o vendedor de vale-transporte sentado em uma mesinha descascada de metal amarelo e que evita olhar pro homem chato...
entro no ônibus e me desligo...
olho em travelling a paisagem de inverno da minha feia bonita praia de camburi,
suas castanheiras em pinceladas grossas impressionistas, como se vistas por detrás de uma janela de vidro molhado, em cores que vão do verde escuro ao vermelho intenso, passando por uma cor de fogo vivo sobre o céu azul...
no movimento do ônibus, eu vou e elas vêm, seus galhos, estruturas trançadas como os fios da memória de nossos três últimos dias, que agora tento tecer em uma vã tapeçaria delirante de penélope que espera, sempre espera...
do outro lado pessoas dormem na calçada em frente a um bar fechado...
meninas rebolam e os gringos olham...
percebo então que a voz, zumbido constante na minha mente, era só o cara chato que agora perturba o cobrador com cara de poucos amigos ou nenhum, olhar vidrado no horizonte quadrado de sua janela de cobrador...
entra uma perua com sua bolsa mondrian de vinil brilhante, saida de algum filme de ficção científica da década de 60 e outra passa na roleta, morena bonita e gostosa com uma blusa de rede branca que me arremessa para outras redes na pesca da minha memória insana, as redes da exibição em rede e na rede... o arcaico e a tecnologia... a invenção da eletricidade...
os vários caminhos da imagem e da memória... daqueles que amam fazer, amam mostrar,
amam estar juntos na celebração coletiva da criação humana...
e nós dois no mesmo balanço dessa rede imaginária tecendo o fio da memória e do encanto,
do futuro e do passado... nos amando embalados por sonhos de rede branca...
adormecidos enroscados como filhote de bichomanso,
que só quer carinho de mãe pra todo mundo ser feliz na grande rede colorida da humanidade...

beijos em rede

15/07/04

segunda-feira, 19 de maio de 2008

eu ando de bicicleta













eu ando de bicileta...
e queria coragem para surfar...

Andar de bicicleta é um ato de equilíbrio e liberdade.
Muitas variáveis podem me desequilibrar e me jogar ao chão e eu quero ter o controle do espaço e do tempo.

Minha vida é cheia de “ses” e eu vivo tentando me livrar deles

Mas tenho que esvaziar a mente para que o caminho me escolha e eu não seja atolada em mais um “se”...
E quando ando de bicicleta tento me soltar da visão de cineasta, do travelling, da visão objetiva e entrar no quadro...

Então, algumas vezes acontece quando sinto o vento, as pernas doendo, ouço o som e sinto a chuva e solto as mãos...

Embora o pensamento esteja trabalhando o tempo todo com as metáforas em que me comunico comigo mesma, pois se não, a sensação não se transforma em percepção que não se transforma em aprendizagem, que não se transforma em conhecimento e blá blá blá...

Então não ultrapasso o tapete bordado que recobre o real...

E pedalo na Internet e vagueio pelo espaço virtual, mas não é por ali que a experiência acontece,
mas as reações em camadas, as texturas e as relações criam realmente um espaço-tempo diferente e eu estou lá, como quando da minha relação espaço-temporal enquanto ando de bicicleta...

Não é possível ficar pensando, nem me separar da bicicleta, do asfalto, do ar ao redor, as pernas que não são minhas, pois não as possuo, sou estas pernas e o movimento que interage com tudo ao redor e dentro...

A espiral...

Nesse momento sou criada pelo movimento e crio com ele, com a totalidade ao redor e a realidade que se move junto comigo...

sábado, 17 de maio de 2008

to aqui

e espero o dia amanhecer, fazer o que?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

rio claro

1º de maio de 2004

violão, sexo, passeio no parque...
discussões e reuniões intermináveis
e fugas pro sol
e migrações por camas e quartos
e o mesmo doce homem forte
que me dá flores e me come e me conta histórias e me canta músicas
histórias de cinema, de romance e guerra
surto com o fumo, descompasso passo a passo resolvido
assim como as picuinhas políticas e os dinossauros
os cariocas, os paulistas, os mineiros, os bahianos, os cearenses, os gauchos e os capixabas

são paulo e eclipse

07/05/2004 - 17:40:11

Detesto São Paulo!
Simples assim, como quem detesta um cheiro, uma comida, algo que não engole.
A sensação de pequeneza...
A velocidade insana e absurda de viver na superfície e no limite da vida.
Ao mesmo tempo amo me diluir no mar de rostos que esbarram no meu olhar...
A grandeza e a miudeza das vidas que não significam nada no grande mar que é São Paulo.

Acabaria me acostumando em viver lá,
mas detestaria me acostumar com isso...
Com a sensação de falta de realidade, de estar presa, amarrada, sem futuro, nem passado...
Folha úmida caída na calçada, pisoteada pelos sapatos de griffe da vã modernidade
de um mundo que já morreu e ainda não sabe...

O nada, o horror, a náusea, a boca seca e o coração apertado...

Cansada o bastante pra querer voltar pra casa, seja lá onde for o lugar, que eu possa um dia chamar de casa...
Cansada o bastante para me sentir diminuída, perdida no vácuo da grande cidade,
que não me compreende e não quero compreender.

A aeronave decolou e vi São Paulo ficando pequena no quadro da janela.

Adeus São Paulo...
Cidade oceano, com seus prédios, casas, história e histórias...
Suas ruas/rios... que em vez de peixes, dão carros e ônibus e gentes em penca.

Então o eclipse da Lua...
E eu, vestida de preto e roxo litúrgico...
A turbulência e o Sol indo do outro lado...
A música no head phone e uma emoção insana crescendo e me engolindo...

Então as nuvens macias, azuis... abrindo pra minha cidadela iluminada,
minha ilha de luz incrustada no oceano negro...

E eu tão feliz e surtada, chorando com a cara boba grudada na janela...

sábado, 10 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 4










10/04/06 – INDO PRA FACULDADE


outro dia... outro lugar... outra viagem...

Se foi assim tão bom e o meu corpo sabe e reconhece, carrega os sinais e uma dor fina que se espalha da virilha, através dos músculos das pernas e costas e ventre, como testemunha dos excessos gososos...

Se foi assim tão bom e tão carregado de intensidade, de intimidade, de você dentro de mim...

Se foi assim tão bom...
Por que carrego o travo amargo do fim do gosto doce na boca?
Por que sinto o espinho cravado na garganta?
Por que a farpa na mente?
Por que acordei com um resto de sonho ruim em fiapos de memória ardente?

E até ontem, ainda sentia as pernas trêmulas, a carne trêmula do excesso desejado...

Por que então, acordei com o maldito “adágio” me rondando, feito nuvem, feito poeira e nevoeiro...
Cheiro de chuva e podridão, gosto de algo-vai-mal?

Por que o adágio-adaga traçando desenhos malditos na pele e o trocadilho infame que não sai da minha visão de raio-x, enquanto fecho os olhos e vejo as imagens que as palavras e os sons e as mãos deslizantes criam sobre desenhos invisíveis marcados a fogo na carne...

E por que certas palavras continuam ecoando na caixa oca da mente?

Por que acho que eu não disse o que queria e falei mais do que devia?
Por que sempre o excesso e a falta?
Por que esta vontade de chorar quando olho pro mar nesta manhã de sol gloriosa em Vitória, depois da chuva e da inundação?
Por que esta dor de espinhos de luz varando minha clarividência cega?

E por que eu só penso em uma palavra?

Depois de tudo... O maldito adágio.

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 3










09/04/06 – ÔNIBUS PRO AEROPORTO DE GUARULHOS/CHOVE.

O BICHO E O MEDO.

Sinto ainda no corpo, a memória da noite.
E o corpo tem memória...
Memória de mãos, de boca e do peso do corpo sobre o corpo.

E fecho os olhos e vejo Bariloche, que não é brega, ou tenta não ser.
E sinto cheiros que são pura lembrança e o arrepio e a pulsação, minha e sua, dentro de mim.
Abraço forte e beijos... E o calor... Quente, muito quente, como febre molhando o lençol.

E o medo...
Tenho medo, tenho pânico e sei que o medo não obedece regras, não obedece razão...
Se obedecesse, não seria medo.

E me fartei (de fartura boa) de mim e você, embora ache (agora) que não deveria tê-lo feito, sei lá...
Talvez nem ter vindo a São Paulo.

Você queria fazer confissões, eu não queria falar nada, mas agora sinto que ficou tudo engasgado em Bariloche... Será?

E eu nem sei o porquê disso tudo, destas palavras que nem são reflexão, são só um fluxo de pensamento que vem no ritmo da chuva no vidro do ônibus.
Então, “sigo o fluxo” das palavras e da memória apagada: verdade inventada.

E você foi logo falando em fazer uma “sacanagem” e eu lá, toda tímida ainda... Sei lá...
E você até tomou dois chopes e até fumou um pouco, mas ainda assim tem medo do “bicho” que ronda e pressiona, a mim também, voraz canibal de dentro pra fora, sempre na boca de sair...
E você, bicho que é, sabe que não há fuga.
Mas viver com medo do “bicho” é ainda a tortura pior, pena, punição que não tem fim.
Mas nada tanto assim, talvez só cinema e literatura.

Então, depois de falar tanto de medo, falar de outras histórias, da sua vida, outras mulheres, outros você...
Toca na sua insanidade, mas não declara, mesmo depois que eu declaro a minha insanidade.
Mas teve também orgulhosos amores de 5 anos da idade da inocência e coragem e verdade...

Mas por que será que depois de tudo, eu me senti sozinha com o meu medo na manhã seguinte?

E eu que estou nessa história de passagem por São Paulo, ainda no caminho pro aeroporto, escrevendo no ônibus e tentando esquecer da chuva que cai com força e torcendo pra conseguir embarcar hoje e fugir daqui.

E eu que sei que agora não dá pra embarcar em vôo cego de tapete voador, que você pode puxar um dia, quando o medo vier na hora da razão, em uma noite de chuva como esta.

Mas a chuva cai forte e eu estou no ônibus indo pra longe daqui.
Eu e meu medo...
Mas o tesão também foi forte, acho até que muito forte e ele vai comigo pra onde eu for e fica um pouco com você também.

E então, eu estou com medo:
Medo da chuva, de São Paulo, da vida, de você e de mim.
Medo da sua ilusão de controlar o “bicho”, como se fosse água pra canalizar, luz elétrica pra carregar nos fios dos postes da consciência...

Medo da minha aparente facilidade em seguir o fluxo...
Medo da minha aparente fragilidade ao seguir o fluxo...

E eu não gosto de forró e nem quero saber da ABD.
Eu só quero filmar e escrever e criar e sei que você também quer.

Também sei que não posso fugir de dar vida aos fantasmas que o “bicho” coloca pra mim e em mim... Eles escapam e me assombram e assombram você também.

Você já disse que meu texto é vivo e é mesmo!
E é o único jeito de me livrar dos fantasmas, ouvindo-os em noites de chuva forte e deixando-os sair em letras meio arrevesadas, mesmo que seja estranho e doloroso, confuso e do avesso.

Sem escolha e sem chance, pra mim, pra você e pra ninguém.

Talvez por saber ou nem saber, tenho andado feliz com minha vidinha besta, tenho tido uma certa bem-aventurança, beatitude, sei lá que merda de nome dar presse estado d´alma!

E é aí que o medo vem, medo que as coisas boas se quebrem, se partam, que os deuses e demônios se vinguem (e você sabe que é assim que eles se comportam) e eu perca o juízo e vá pro inferno de uma vez.

E por que eu acho, com a minha clarividência cega, que foi uma loucura ter vindo a São Paulo?

E meu corpo ainda sente você e você esteve dentro de mim e esse momento foi de prazer e perfeição...

E sinceramente, eu não estou com medo nenhum!

E, quando eu resolvo ultrapassar a linha, é sempre por minha conta e risco, é sempre porque eu quero, porque voar é melhor e mais divertido do que ficar no buraco tentando segurar o “bicho”.
Nem com toda a meditação do mundo...
Pois o que o mundo me ensinou é que quando o “bicho” quer, ele se solta e a única coisa a fazer é “seguir o fluxo”.

Então, mulher branca dos olhos verdes... Siga o fluxo...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 2










07/04/06 – BAR BRAHMA/CURITIBA.

Leminsky na parede do banheiro:

ISSO DE QUERER SER
EXATAMENTE AQUILO
QUE A GENTE É
AINDA VAI
NOS LEVAR ALÉM

Falamos do BAR BRAHMA de São Paulo.
Eu quase fui parar lá de novo, mas eu já o conhecia de outros tempos, não tão bons assim...

No dia seguinte, Clarice Lispector:

NÃO QUERO TER A TERRÍVEL LIMITAÇÃO
DE QUEM VIVE APENAS DO QUE É PASSÍVEL DE FAZER SENTIDO.
EU NÃO: EU QUERO UMA VERDADE INVENTADA.



sábado, 3 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 1






Documentário-ficção desconstruído sobre o real da minha vida.

02/04/06 – AEROPORTO DE VITÓRIA.
INDO PARA CURITIBA.

Bateu uma solidão danada antes de viajar e acabei comprando um maço de cigarros depois de um mês sem fumar. Já tinha dado uns tragos em outras ocasiões, mas me senti um pouco idiota fumando do lado de fora do aeroporto. Mas enfim, a vida é muito idiota em muitos sentidos idiotas.

Na sala de embarque havia muitos judeus, daqueles tradicionais com chapeuzinhos dos quais no momento esqueci o nome, barbas longas e costeletas enroladas e, ao meu lado, duas mulheres levavam livros de vendas, o melhor é o título: O VENDEDOR PITT BULL! “Literatura” cachorra pronta a atiçar a agressividade dos negócios, antes na coleira. Como se o mundo precisasse disso.

Sentaram-se ao meu lado, é claro, só espero que elas não puxem conversa...

03/04/06 – CURITIBA.

O trabalho começou, tivemos reunião.
Dormi mal, como sempre na primeira noite fora de casa.

Conheci pessoas... Talvez morar aqui, dar aulas aqui... Delírios pra espantar o sono, enquanto assisto uma palestra e um documentário da Joana Nin, que acabou de ganhar o É TUDO VERDADE...
Ando cansada do mundinho...

04/04/06 – RUAS DE CURITIBA.

Um passeio à toa pelas ruas de Curitiba para comprar pilhas, creme dental e bugigangas, revela uma manhã de frio sol de outono... Luz oblíqua, sem clichê, como é a luz do sul, que desvela um céu azul limpo e transparente em pleno centro da cidade e é aniversário da minha filha, 18 anos hoje e então, eu sou mãe de uma pessoa na maioridade (o que significa isso?), 18 anos hoje e eu caminho pelas ruas do centro de Curitiba...

05/04/06 – OUVINDO E VENDO ENYA NA TV.

Não que eu goste, mas lembrei de Mac (que gostava) e me pareceu tão estranho ele não estar mais aqui. Poderia estar caminhando sobre a Terra, sentindo o sol, o vento, dores e amores, prazer...
Vejo com a nitidez da memória: seu rosto, seus olhos, seu sorriso de moleque, tão bonito.
Ele que se dizia mãe da minha filha, minha menina na minha barriga, agora com 18.
Tomando conta de mim nas minhas noites grávidas, pra eu não fazer besteira.
Depois brincando com ela, criança com ela.

O tempo dos amigos... Será que acabou?

O sino da catedral tocou se misturando com a música. Foi estranho e apropriado.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

desterritórios

06/02/08
Andei com muita raiva, raiva mesmo, porque ódio é coisa de fascista e quase sempre direcionado a um alvo específico e raiva não, é mais geral e no momento se dirige contra um sentimento que cerca tudo ao redor, quase um lago de náusea que engole o mundo enquanto a humanidade ri e chora suas pitangas.

Mas essa raiva é boa, porque me tira do aconchego preguiçoso da posição em que me encontro. Uma posição que há tempos me incomoda e me faz questionar se é isso mesmo que eu quero continuar fazendo pro resto da minha vida, não que isso exista, o resto da minha vida, mas que há algo de errado no meu coração, lá isso há... ou seja, to de saco cheio! E é daí que veio a raiva, que me levou pra dias de mal humor sem querer sair de casa e noites de insônia sem querer sair de casa também... E foi assim que sentei aqui pra começar a escrever essa historinha, ou melhor, essa introdução a uma historinha fragmentária onde várias personagens se inscrevem, se cristalizam e esvanecem em traços perdidos nos tempos espaços pelos quais me movimento.

Mas essa não é um história de mulherzinha, embora tenha algumas coisas de mulherzinha, é claro, pois às vezes eu também sou uma mulherzinha e acho que até o mais macho de los machos também é mulherzinha de vez em quando. Mas mesmo quando sou uma mulherzinha tenho dentro de mim uma fenda, uma fissura que deixa escapar o veneno do mundo pra dentro das dobras dos meus relevos nessa geografia tempo espacial que me devora enquanto devoro o mundo. E o que me faz gozar quase nunca é o certo, o correto, o seguro, as linhas e bordados, os paninhos e as cozinhas, as louças e as prateleiras, mas sim os devires encantados do mundo sujo lá fora, os loucos e as situações limite, fronteiras do absurdo que na sua velocidade insana me levam ao êxtase, a perder o fôlego em mergulhos abissais pra longe dos cotidianos assim chamados por mim de dias de mulherzinha...

E ao mexer e remexer nos meus baús de insanidades e intensidades – o que em si pode ser considerado coisa de mulherzinha (tudo bem...) – encontro fragmentos que não reconheço mais, pois que já não sou mais, mas que trazem essas mulheres-pessoas para fora em uma mistura que tentei em vão organizar, mas que agora quero que saia, pois vejo o quão diferente são essas pessoas daquelas das crônicas bem comportadas que falam de tardes de verão, de redes, de passeios no calçadão de camburi e de discos antigos e músicas ouvidas em varandas com amigos e vinhos... não que eu não goste dessas coisas que enfim, têm sua magia, mas é que não consigo escrever se não louca de paixão, de dor, de alegria ou de raiva, portanto, nada consegue ser assim tão suave e tom pastel como passar uma tarde em itapuã e se alguém tem medo de abismos, então, aconselho a não olhar, pois gosto da vertigem e com ela procurei me pautar nessa empreitada. Bom salto!

doce de leite de verdade

doce de leite de verdade

21/08/2004

Vejo cores brilhantes, cegam e tenho vontade de escrever sons que dancem na boca na hora do beijo molhado da saliva grossa guardada escondida no cofre do olhar...
A boca na garganta, o pulsar da jugular na hora do gozo...
Só deixo então, a mão agir, captando imagens que trazem sonhos pro papel cor de carne...
sua pele creme, cor do mel que sai de mim quando sou lambida/comida com gula...
devastada por dedos de deuses...
arranhada com o pelo grosso da sua barba negra/mediterrânea...
E os cabelos enrolados em volta dos meus dedos, seu punho fechado em volta de meus cabelos quase lisos/marrom como chocolate...
e mordo a pele quente/vulcão...
labaredas correm pelos lençóis de mil camas de mil quartos de mil hotéis...
Fantasmas pelos corredores gemendo a dor e o deleite fantástico de carnavais e funerais e festivais e procissões e ladainhas e fincadas de mastro e bandeirolas ao vento, recorte rubro no céu azul do inverno quente da minha terra/ilha/istmo de rocha invadindo o território da água clara/morna da minha terra/ilha/mar...
onde passeio pés na areia cor de doce de leite, daquele feito por mãe...
doce de leite talhado em tigela de vidro azul na geladeira, comido de colher a cada hora em que me lembro de levantar no sonho de infância, de mulher feita agora...
sonho com o mel e o creme da sua cor e vejo coisas de olhos arregalados com a delícia das cores brilhantes do mundo que só faz me cegar de prazer...
E vejo muito mais com os olhos da memória de tantas cidades visitadas/bebidas/comidas/beijadas...
a esquina de São Paulo, que de tão bêbada, confundi com a outra, a esquina de Belo Horizonte, onde comi sanduíche de rua, onde os crentes desaguaram como cardumes/rebanho de vacas indóceis do templo do dinheiro...
e na Augusta eu fiz um tour pelo inferno, embriagada pela euforia e pela desolação gigante na madrugada no meio de tantos amigos e bares de streep tease e putas e travecas e você andando na frente e eu ficando pra trás...
A desilusão no rio de asfalto, onde bêbados navegam trôpegos suas solidões desritmadas...
e dessa vez eu gostei de São Paulo, como tenho gostado de todas as cidades/esquinas/prédios/parques que nunca visito com leões de pedra e lagos e árvores velhas e banquinhos onde sentam os velhinhos, os namorados, as babás e os cachorrinhos...
cachaça e cerveja e ressaca...
café da manhã com hora pra acabar o sono enrodilhado no seu abraço, mesmo que na noite tenh socado você com raiva, ainda hoje quero seu calor e voltar a ver as cores brilhantes que me cegam quando enxergo visões de olhos bem fechados de dor de amor...
que me trazem o prazer de sentir a carne da alma machucada, joelhos ralados, costas marcadas e dedos feridos da parede áspera que tomou o lugar de seu ombro no boteco de Belo Horizonte...

Como sinto falta... me falta o ar...

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TOKIO










Hoje me senti em Tokio.

Claro, eu não conheço Tokio, mas eu estava lá, na chuva cinza, na metrópole cinza, entre bingos e cines pornôs, pensando e agindo Tokio em São Paulo...

E demora tanto pra ser feliz em São Paulo, mas é possível.

E a cidade me encantou de novo, quando vi a névoa no céu, atravessando a rua quase deserta, os luminosos sobre os prédios no fim da avenida e a discussão que não decifra nada, não dá conta de nada, mas nos coloca no vórtice.

E agora eu estou com sono e quase em falência total.

E era uma Tokio de Neuromancer, com aquele céu de estática sobre a megalópole e o bairro dos inferninhos.

Cara, São Paulo é do caralho!

04/12/04.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

a chuva

04/06/04

hoje a tarde...
um temporal se arma nos céus capixabas e a previsão é de vendavais e chuvas de granizo...
aí também estava debaixo dágua... nada de céu azul aqui também, nada de brilho do sol oblíquo do outono, só nuvens negras se avolumando, formando uma massa escura sobre mim, sobre os morros, sobre as praias... a cidade fechada em uma concha plúmbea... e por dentro uma opressão... os morros podem deslizar, as casas podem ser soterradas e o mundo começa a parecer tão louco e sem sentido que eu não consigo nem ver o telejornal que a náusea sobe pra minha garganta em forma de choro... e a vontade é de estar longe disso tudo...
as propagandas do dia dos namorados que eu não suporto... chocolates, beijos e celulares em
out doors pela cidade e o buraco negro no meu peito crescendo e me engolindo inteira nesse derramamento, incessante jorro de mim...
ontem olhei a lua no céu e um véu branco leitoso a cobria...
e no caminho de casa as formigas enlouquecidas migravam em caminhos tortos pelos meio-fios... elas sabem que o céu vai transbordar e alimentar o mundo com a água da vida e da morte...
excesso por todos os lados e ando evitando as lojas americanas, as vitrines e os shoppings... ando destrambelhada, menstruada e desequilibrada... a cada momento um pólo da alma, uma intensidade que pedi mas que não queria e só fazem 18 dias que dormimos um nos braços do outro... outro céu, outro mar, outro rio e onde estão os deuses do equilíbrio e do encontro que nos fizeram este amálgama de carne e alma e cheiros e beijos e projetos???
tantas idéias, vontade de fazer, criar, transformar o mundo... e eu presa no filme dos outros, na ignorância dos adversários, no ego, enorme ego de pessoas que não sabem o quanto atrapalham, ou sabem e é isso que querem...
e eu só quero criar, amar e beijar na boca e ver a lua e que todo mundo possa fazer a mesma coisa e ser humano incompleto e ir ao fundo do mundo e ao mais alto céu estrelado simultaneamente...
e tudo isso pra dizer que tá doendo e que eu tenho saudades e que sinto falta do seu peso, da sua boca, das suas mãos, do seu sorriso, da sua voz e do seu abraço ao dormir... sempre em camas de solteiro... algumas duras, outras macias, mas sempre com o espaço suficiente pro abraço, pro amasso, pro seu braço sobre o meu espaço...
e vai chover e chover muito sobre vitória, sobre seus morros, sobre suas praias, sobre mim e dentro de mim...
não acho mais lugar dentro desta caixa chamada saskia...
hoje a noite... ainda chove, mas menos... o céu desabou, só vi pela varanda, depois trabalhei decupando roteiro e agora falo com vc.
um beijo grande, vou pra casa... se der me ligue.
a lua está encoberta mas deve estar por aí em algum lugar do céu...
mais beijos.
eu.

lojas americanas

sei que daqui a pouco meu corpo vai assimilar o veneno e tudo vai ficar um pouco mais calmo, mas por enquanto, o efeito dessa droga é poderoso,
algo como uma bomba napalm, sem antídoto possível...
a floresta está em chamas e não vejo água ou escada de incêndio...
Sinto meu sangue virando lava e meus poros se tornando vulcões em erupção
Portanto nunca se sinta assim nas Lojas Americanas,
pois ontem fui comprar miudezas: tinta de cabelo, escova de dente, desodorante... e saí com quase 100 reais em compras inúteis... presentinhos pra minha carência, algo absurdamente ridículo, coisa de mulherzinha que sempre abominei...
De repente, na sessão de lingerie, entre uma calcinha e uma meia fina, me desviando de peruas em tons pastéis, que compravam sutians rendados e rosados, comecei a ouvir algo muito sentimental do Cidade Negra e a minha garganta travou...
E eu que só queria comprar um sutian preto, simples, de algodão...
alí, no meio das calcinhas, queria mesmo era chorar até derreter...
Não sei mais nada...
Você arrombou os portões da minha cidadela e agora, o que eu faço com o monstro que saiu de lá????

Tigela de arroz

04/08/04

Vejo a lua, uma tijela branca cheia de arroz japonês,
contra a toalha negra e aveludada do céu de inverno...
Nuvens como dobras de céu iluminado pela alva face da deusa,
os fios prata de seus cabelos bordam a superfície de
cetim barato e enrugado do mar...
E o ônibus roda veloz na noite úmida pós chuva.
O céu tem uma transparência fresca e eu encosto
a cara cansada no vidro da janela...
O vento entra frio, bate no meu rosto e molha meus
olhos entreabertos.
Tomei algumas cervejas no boteco da lama,
comi calabrezas fritas com cebolas e amendoim
do moleque negro de cabelos arrepiados,
mas não fiquei com meus amigos para ver
o jogo do flamengo, embora quisesse...
Lembrei da lua azul em Belo Horizonte,
vislumbrada através da renda aleatória
das árvores na Afonso Pena...
Andando e sentindo o ar gelado
ardendo as narinas na rua Bahia,
conversando com a cidade com você,
a mão congelada,
pedra de vênus na sua mão quente...
Pensei no parque que não visitei
e nas cervejas e cachaças que tomei
e nas poesias que falei e ouvi,
em filmes na rede e pessoas em rede pelo mundo,
o bordado tecido pela aranha paciente
da gente que sabe da loucura
que precisa trazer no peito insano para fazer o que faz...
Pensei em você e comecei a dizer estas palavras
inconscientemente no transe que me aproxima de sua alma,
que me é tão próxima...
Como você disse antes,
uma só seta certeira em Manguinhos...
E outra lua me veio levar em uma viagem sem volta
para esta intensidade voraz que me come pedaço a pedaço...
Pensei que fui dura hoje em meu email,
a culpa a me comer as entranhas moles de cansaço
e na dor no peito com que despertei do
sono benção/bêbado...
Vortex alucinógeno e a minha vida a me tomar de mim
e me arrastar pro redemoinho da sua dor...
e a certeza de que se você acordar e
conseguir enxergar,
vai cessar todo o sofrimento...
Todo amor e paz pra você...
Escrevo e ouço Lenine...
Escrevo pra você, escrevo roteiros,
escrevo argumentos,
escrevo projetos e me diluo na escrita,
derreto e escorro com a pena no papel,
traço linhas delicadas, intrincadas
que correm velozes e autômatas.
Serenidade para saber a hora de voar e a hora de parar.
Mas a aventura da tinta azul na superfície branca
está só no começo...