sexta-feira, 2 de maio de 2008

desterritórios

06/02/08
Andei com muita raiva, raiva mesmo, porque ódio é coisa de fascista e quase sempre direcionado a um alvo específico e raiva não, é mais geral e no momento se dirige contra um sentimento que cerca tudo ao redor, quase um lago de náusea que engole o mundo enquanto a humanidade ri e chora suas pitangas.

Mas essa raiva é boa, porque me tira do aconchego preguiçoso da posição em que me encontro. Uma posição que há tempos me incomoda e me faz questionar se é isso mesmo que eu quero continuar fazendo pro resto da minha vida, não que isso exista, o resto da minha vida, mas que há algo de errado no meu coração, lá isso há... ou seja, to de saco cheio! E é daí que veio a raiva, que me levou pra dias de mal humor sem querer sair de casa e noites de insônia sem querer sair de casa também... E foi assim que sentei aqui pra começar a escrever essa historinha, ou melhor, essa introdução a uma historinha fragmentária onde várias personagens se inscrevem, se cristalizam e esvanecem em traços perdidos nos tempos espaços pelos quais me movimento.

Mas essa não é um história de mulherzinha, embora tenha algumas coisas de mulherzinha, é claro, pois às vezes eu também sou uma mulherzinha e acho que até o mais macho de los machos também é mulherzinha de vez em quando. Mas mesmo quando sou uma mulherzinha tenho dentro de mim uma fenda, uma fissura que deixa escapar o veneno do mundo pra dentro das dobras dos meus relevos nessa geografia tempo espacial que me devora enquanto devoro o mundo. E o que me faz gozar quase nunca é o certo, o correto, o seguro, as linhas e bordados, os paninhos e as cozinhas, as louças e as prateleiras, mas sim os devires encantados do mundo sujo lá fora, os loucos e as situações limite, fronteiras do absurdo que na sua velocidade insana me levam ao êxtase, a perder o fôlego em mergulhos abissais pra longe dos cotidianos assim chamados por mim de dias de mulherzinha...

E ao mexer e remexer nos meus baús de insanidades e intensidades – o que em si pode ser considerado coisa de mulherzinha (tudo bem...) – encontro fragmentos que não reconheço mais, pois que já não sou mais, mas que trazem essas mulheres-pessoas para fora em uma mistura que tentei em vão organizar, mas que agora quero que saia, pois vejo o quão diferente são essas pessoas daquelas das crônicas bem comportadas que falam de tardes de verão, de redes, de passeios no calçadão de camburi e de discos antigos e músicas ouvidas em varandas com amigos e vinhos... não que eu não goste dessas coisas que enfim, têm sua magia, mas é que não consigo escrever se não louca de paixão, de dor, de alegria ou de raiva, portanto, nada consegue ser assim tão suave e tom pastel como passar uma tarde em itapuã e se alguém tem medo de abismos, então, aconselho a não olhar, pois gosto da vertigem e com ela procurei me pautar nessa empreitada. Bom salto!

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