segunda-feira, 26 de maio de 2008

e só choveu











18/09/06 – E só choveu...

E choveu e choveu muito...
E ainda hoje manhãzinha caminhei na areia dos sonhos na praia limiar entre o caminho percorrido e os pesadelos da descrença...

E o sol fora da proteção frágil dos meus coreanos ray ban queimava meus olhos como bafo de dragão quando eu tentava em vão olhar dentro da impossibilidade da minha existência abrindo um portal na entrada da gruta onde uma força ancestral mostrava sua mão estendida com uma pequena caixa negra na qual ainda não pude olhar mesmo sabendo que já sei a resposta... sempre soube...

E embora na minha visão fosse noite e fora o dia queimasse e insistisse a secura que oprime o peito e faz sangrar o nariz e pensasse em você quando olhei o mar novamente e as cores então me pareceram mais suaves em cinzas doces com pinceladas de prata líquido e branco leite...

E pensei “vai chover” com a dor em todas as cicatrizes me avisando e andei pra casa mais aliviada e então choveu e choveu muito com o céu passando de impressionista pra expressionista e o cinza esmaecido tingindo-se de chumbo quase negror da noite...

E eu como boa mãe que sou mandei minha filha levar guarda-chuva
e ela como boa filha que é disse que preferia tomar banho de chuva
e eu concordei porque eu também assim o prefiro...

E senti assim o cheiro das primeiras grossas gotas caindo no asfalto quente e seco...

E pensei em você em São Paulo cidade terrorista e em como deve ser difícil sobreviver no ventre do monstro antropofágico da metrópole que engole os sonhos e a capacidade de crer em miragens tendo um não horizonte a orientar seus rumos...

E me deu saudade da quietude de um esconderijo bem no meio da barriga da fera em uma rua com nome de santo e uma sala com um lustre feio porque ali houve algo como um encontro de refugiados em um campo seguro mesmo que depois a guerra cotidiana nos tenha levado pras nossas insuperáveis solidões nauseadas pelo balanço das marolas pálidas das vidas invisíveis no vasto caos do universo...

E senti saudade mesmo pressentindo que o medo ainda vai me roubar a possibilidade do encontro e talvez então o vazio e o silêncio sejam minhas únicas respostas...

E senti saudades e imaginei você por aqui e quis que você soubesse enquanto a chuva caia doce e estrepitosamente sobre o pequeno jardim caótico na frente da minha janela desanimada tingindo o mundo de cinza cálido cor de água no asfalto da tarde molhada...

E o manto de calmaria
e o cheiro de nostalgia
em pleno setembro quase outubro quase primavera...

E dessa vez não ventou na minha ilha... só choveu.

foto de rebecca de sá

Um comentário:

Anônimo disse...

Couldnt agree more with that, very attractive article