sábado, 10 de maio de 2008

FRAGMENTOS DE VIAGEM... 3










09/04/06 – ÔNIBUS PRO AEROPORTO DE GUARULHOS/CHOVE.

O BICHO E O MEDO.

Sinto ainda no corpo, a memória da noite.
E o corpo tem memória...
Memória de mãos, de boca e do peso do corpo sobre o corpo.

E fecho os olhos e vejo Bariloche, que não é brega, ou tenta não ser.
E sinto cheiros que são pura lembrança e o arrepio e a pulsação, minha e sua, dentro de mim.
Abraço forte e beijos... E o calor... Quente, muito quente, como febre molhando o lençol.

E o medo...
Tenho medo, tenho pânico e sei que o medo não obedece regras, não obedece razão...
Se obedecesse, não seria medo.

E me fartei (de fartura boa) de mim e você, embora ache (agora) que não deveria tê-lo feito, sei lá...
Talvez nem ter vindo a São Paulo.

Você queria fazer confissões, eu não queria falar nada, mas agora sinto que ficou tudo engasgado em Bariloche... Será?

E eu nem sei o porquê disso tudo, destas palavras que nem são reflexão, são só um fluxo de pensamento que vem no ritmo da chuva no vidro do ônibus.
Então, “sigo o fluxo” das palavras e da memória apagada: verdade inventada.

E você foi logo falando em fazer uma “sacanagem” e eu lá, toda tímida ainda... Sei lá...
E você até tomou dois chopes e até fumou um pouco, mas ainda assim tem medo do “bicho” que ronda e pressiona, a mim também, voraz canibal de dentro pra fora, sempre na boca de sair...
E você, bicho que é, sabe que não há fuga.
Mas viver com medo do “bicho” é ainda a tortura pior, pena, punição que não tem fim.
Mas nada tanto assim, talvez só cinema e literatura.

Então, depois de falar tanto de medo, falar de outras histórias, da sua vida, outras mulheres, outros você...
Toca na sua insanidade, mas não declara, mesmo depois que eu declaro a minha insanidade.
Mas teve também orgulhosos amores de 5 anos da idade da inocência e coragem e verdade...

Mas por que será que depois de tudo, eu me senti sozinha com o meu medo na manhã seguinte?

E eu que estou nessa história de passagem por São Paulo, ainda no caminho pro aeroporto, escrevendo no ônibus e tentando esquecer da chuva que cai com força e torcendo pra conseguir embarcar hoje e fugir daqui.

E eu que sei que agora não dá pra embarcar em vôo cego de tapete voador, que você pode puxar um dia, quando o medo vier na hora da razão, em uma noite de chuva como esta.

Mas a chuva cai forte e eu estou no ônibus indo pra longe daqui.
Eu e meu medo...
Mas o tesão também foi forte, acho até que muito forte e ele vai comigo pra onde eu for e fica um pouco com você também.

E então, eu estou com medo:
Medo da chuva, de São Paulo, da vida, de você e de mim.
Medo da sua ilusão de controlar o “bicho”, como se fosse água pra canalizar, luz elétrica pra carregar nos fios dos postes da consciência...

Medo da minha aparente facilidade em seguir o fluxo...
Medo da minha aparente fragilidade ao seguir o fluxo...

E eu não gosto de forró e nem quero saber da ABD.
Eu só quero filmar e escrever e criar e sei que você também quer.

Também sei que não posso fugir de dar vida aos fantasmas que o “bicho” coloca pra mim e em mim... Eles escapam e me assombram e assombram você também.

Você já disse que meu texto é vivo e é mesmo!
E é o único jeito de me livrar dos fantasmas, ouvindo-os em noites de chuva forte e deixando-os sair em letras meio arrevesadas, mesmo que seja estranho e doloroso, confuso e do avesso.

Sem escolha e sem chance, pra mim, pra você e pra ninguém.

Talvez por saber ou nem saber, tenho andado feliz com minha vidinha besta, tenho tido uma certa bem-aventurança, beatitude, sei lá que merda de nome dar presse estado d´alma!

E é aí que o medo vem, medo que as coisas boas se quebrem, se partam, que os deuses e demônios se vinguem (e você sabe que é assim que eles se comportam) e eu perca o juízo e vá pro inferno de uma vez.

E por que eu acho, com a minha clarividência cega, que foi uma loucura ter vindo a São Paulo?

E meu corpo ainda sente você e você esteve dentro de mim e esse momento foi de prazer e perfeição...

E sinceramente, eu não estou com medo nenhum!

E, quando eu resolvo ultrapassar a linha, é sempre por minha conta e risco, é sempre porque eu quero, porque voar é melhor e mais divertido do que ficar no buraco tentando segurar o “bicho”.
Nem com toda a meditação do mundo...
Pois o que o mundo me ensinou é que quando o “bicho” quer, ele se solta e a única coisa a fazer é “seguir o fluxo”.

Então, mulher branca dos olhos verdes... Siga o fluxo...

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