quinta-feira, 1 de maio de 2008

Tigela de arroz

04/08/04

Vejo a lua, uma tijela branca cheia de arroz japonês,
contra a toalha negra e aveludada do céu de inverno...
Nuvens como dobras de céu iluminado pela alva face da deusa,
os fios prata de seus cabelos bordam a superfície de
cetim barato e enrugado do mar...
E o ônibus roda veloz na noite úmida pós chuva.
O céu tem uma transparência fresca e eu encosto
a cara cansada no vidro da janela...
O vento entra frio, bate no meu rosto e molha meus
olhos entreabertos.
Tomei algumas cervejas no boteco da lama,
comi calabrezas fritas com cebolas e amendoim
do moleque negro de cabelos arrepiados,
mas não fiquei com meus amigos para ver
o jogo do flamengo, embora quisesse...
Lembrei da lua azul em Belo Horizonte,
vislumbrada através da renda aleatória
das árvores na Afonso Pena...
Andando e sentindo o ar gelado
ardendo as narinas na rua Bahia,
conversando com a cidade com você,
a mão congelada,
pedra de vênus na sua mão quente...
Pensei no parque que não visitei
e nas cervejas e cachaças que tomei
e nas poesias que falei e ouvi,
em filmes na rede e pessoas em rede pelo mundo,
o bordado tecido pela aranha paciente
da gente que sabe da loucura
que precisa trazer no peito insano para fazer o que faz...
Pensei em você e comecei a dizer estas palavras
inconscientemente no transe que me aproxima de sua alma,
que me é tão próxima...
Como você disse antes,
uma só seta certeira em Manguinhos...
E outra lua me veio levar em uma viagem sem volta
para esta intensidade voraz que me come pedaço a pedaço...
Pensei que fui dura hoje em meu email,
a culpa a me comer as entranhas moles de cansaço
e na dor no peito com que despertei do
sono benção/bêbado...
Vortex alucinógeno e a minha vida a me tomar de mim
e me arrastar pro redemoinho da sua dor...
e a certeza de que se você acordar e
conseguir enxergar,
vai cessar todo o sofrimento...
Todo amor e paz pra você...
Escrevo e ouço Lenine...
Escrevo pra você, escrevo roteiros,
escrevo argumentos,
escrevo projetos e me diluo na escrita,
derreto e escorro com a pena no papel,
traço linhas delicadas, intrincadas
que correm velozes e autômatas.
Serenidade para saber a hora de voar e a hora de parar.
Mas a aventura da tinta azul na superfície branca
está só no começo...

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