quinta-feira, 5 de junho de 2008

além mar













28/10/2006 – além mar

E o meu sonho feliz de cidade se dilui na sua visão de infindáveis luzes vermelhas na noite paulistana. Pareceu então que via e ouvia através de seus olhos e ouvidos enquanto me dissolvia do cansaço do dia quente pelas ruas do centro portuário da minha ilha. E escutei sua voz que me levou de volta para a sedutora cidade monstro e consigo ainda ver você imerso no caos, seu olhar, seu humor e a saudade que me faz desejar estar também no inferno céu. E eu não sei se é o monóxido, ou o constante fluxo de carros e gentes que entrou na minha visão, vício irreversível, poderoso ópio... Não sei se são seus olhos a me apresentarem essa São Paulo como fragmento de beleza e caos fascinante onde você também se mistura e, então eu leio histórias da metrópole insana que chegam através de outros olhares e o mosaico se funde em tantas cores que não consigo mais enxergar... apenas o cinza sujo com o fluxo de luzes brancas e vermelhas, vagas impressões pelo telefone.

E então, homem peixe de uma cidade sem mar, com suas caudalosas ruas repletas de fartos cardumes vermelhos que não cessam de brilhar e fluir e seguir em noturno negror fantasmagórico, em mitos e lendas e histórias que tenho que ler e entender em tão pouco tempo. E descubro que é impossível passar incólume pela metrópole, onde se arrastam os vagabundos e os desesperados, onde esbarro na desesperança dos deserdados, miseráveis ajoelhados à beira de suas avenidas a implorar, a buscar algo que ninguém sabe, para sempre perdido nos seus labirintos emboscada para incautos como eu mesma. E tal qual narciso às avessas, sem conseguir ver meu reflexo no ventre negro dos rios turvos da cidade dos milhões de diabos velozes das noites alcoólicas de Sábado.

E o Camões libertário nunca lido, mas reverentemente escutado no apartamento madrugada adentro em conversa insone e ainda bem que você não se importa com meu cigarro e eu às vezes invejo sua persistência e disciplina em não abrir mão de você, seja lá o que isso for e eu sempre deságuo tudo...

E na estrada em mais uma viagem em que levo histórias de São Paulo para ler e misturo com a paisagem de céu vasto e múltiplo de azuis, cinzas e brancos... e as pedras do Espírito Santo, as mangueiras, as bananeiras, os coqueiros pálidos e as casas de tijolo, de madeira e aquela laranja fluorescente contra o cinza tenebroso prenúncio de tempestade anunciada no caminho veloz e me lembro de novo de Camões e de todos os poetas esquecidos ou não lidos. Quanto tempo tenho ainda para ler e criar e pintar e escrever e filmar e viver uma nova vida uma nova cidade uma nova eu e um novo você?

E então Zé Ramalho no som do carro, CD do motorista, trilha sonora da minha viagem até o porto antigo, quero ver o por do sol no antigo Cricaré, rio de negros, praça de casarios e história.

E o calor e o vestido preto, sandália baixa de couro, cor de couro e a África e o norte e o rumo e a Grécia e os deuses de um lado e do outro do ancestral continente separado e novamente reunido e as incontáveis diásporas ao redor do mundo e os novos muros e a sensação de tragédia iminente e o calor e a sensação de oráculo e premonição e a saudade que me vem em ondas de vento quente de um homem peixe com olhos verdes como se infindáveis léguas estivessem a nos separar e eu, a portuguesa de preto no porto estivesse a cantar um fado nostálgico das terras de além mar...

Um comentário:

biAh weRTHer disse...

além mar ...