domingo, 27 de julho de 2008

diálogos baratos, ou uma piada particular...










foto de rebecca de sá

30/09/06

Algo engraçado aconteceu hoje em meio à tempestade emocional da pré-produção da mostra, que continua com o mesmo clima, com algumas pessoas sempre com uma grande vocação para o “poder” e, por mais que elas tentem ocultar, esse “defeitinho de caráter” acaba sempre por vazar, o cheiro exala pelos poros causando um ligeiro desconforto perceptível nos olhares das pessoas mais sensíveis. Não que os outros, livres desse “defeitinho”, ou eu mesma, que também me considero arrogantemente livre desses demônios capitalistas (até certo ponto), não queiramos também o nosso bocado, mas talvez exista certo senso de perspectiva que alguns parecem ter e que outros ignoram, mais solenes do que uma missa no Vaticano.

E, sei agora que o que tem me angustiado não é bem a questão de “querer ser outro”, mas a de “não poder ser outro”...

Mas fora da esfera da mediocridade cultural, onde ultimamente nado de costas pra evitar o odor, a vida continua linda, livre e selvagem... Como sempre sem controle, com seus céus azuis e ventos nordeste trazendo o calor, o samba nos botecos, as mulheres de vestido de alça e sandália havaiana e uma esperança de verão pra minha visão distorcida que só consegue enxergar o lado bom de estar viva aqui e agora, nesse tempo e lugar e de conseguir reunir, apesar de tudo, muita gente envolvida com paixão nesse empreendimento quase kamikase...
E isso sim, é bonito de se ver e sentir, muito bonito...

Mas o engraçado que comecei a falar é uma história que não tem nada a ver com a mostra ou com minha vida atual, mas com a capacidade de ver a vida e de rir dela e de mim...
Portanto, vamos aos fatos:
Hoje, eu estava em casa, depois de chegar de uma reunião de trabalho pré-mostra, em pleno sábado de sol... - claro que paramos pra tomar umas cervejas... barzinho, fim de tarde, primavera, calor e brisa e samba maroto e freqüentadores incríveis que dariam um filme e meio cada um - e me joguei no sofá , enquanto minha filha ia pegar um filme na locadora e eu pensava no que fazer pra comer, dedo rápido no gatilho do controle remoto pro tédio televisivo não me pegar e eis que paro, sem querer, em um telefilme com todo jeitão de idiota: a cena se passa em um desses bares americanos típicos dos anos 60 (que claro, eu nunca vi ao vivo, só no cinema) com soldados americanos preparando-se para irem à guerra do Vietnã. Um deles defende a guerra e os outros riem dele cinicamente, embora não tenha nesse riso nenhuma crítica ou reflexão. Então, ele se levanta e vai, todo estufado de orgulho patriótico americano, até o balcão, pedir bebidas para a garçonete com sombras azuis, delineador e cílios postiços, maquiagem pesada sixtie nos olhos:

Ele (apontando pra mesa dos soldadinhos): “O mesmo pros meus amigos.”

Ela: “Dois whiskies e duas cervejas?”

Ele (com sorrisinho galante): “Sim e uma coca pra mim. Eu não bebo e não fumo.”

Ela (com uma expressão sedutora): “Mais alguma coisa que você não faça?”

Ele, que já estava se dirigindo à mesa com os copos nas mãos, se vira, com o olhar safado, e a frase “vou te comer” estampada na cara porca...

Então eu cortei a cena com meu dedo mágico no controle remoto e ri na minha sala solitária de sábado à noite, pensando:

“Certamente, minha história é melhor e ganharia todos os prêmios nas categorias de cenário, figurino, roteiro e elenco...”

Mas de ontem pra hoje, a vida ficou mais divertida e eu mais libriana. Até comprei vestidinhos novos, um preto de bolinhas brancas com saia esvoaçante, muito moça dos anos sessenta e outro vermelho de veludo com decote vertiginoso, nada moça...
Então estou me divertindo e quase, quase tendo um ataque de êxtase... que São Paulo me aguarde com meus vestidos novos e esta insuspeita sensação de bem aventurança que voltou a habitar meu sorriso.

Beijo grande e saudade de um encontro nosso e de diálogos mais criativos do que os que tenho encontrado na ficção e na realidade barata dos últimos tempos.

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