domingo, 27 de julho de 2008

ouço músicas e aproveito o sol












Ouço músicas desde ontem e aproveito o sol que finalmente deu as caras no meu horizonte ilhéu, embora eu more no continente, mas acho mais bacana me referir à minha ilha, à minha praia, algo assim mais cubano e beat tropical, limitado por fronteiras que me contém em mim, do que um continente inteiro pra ser explorado.

Então, pedalo pela ciclovia da minha camburi à beira mar e abstraio o seu horizonte atual de chaminés e porto e a cor cinzenta do seu mar podre e vou até a universidade e nado na piscina que fica fechada nessa época das férias e o vigia não quer me deixar entrar, mas eu o convenço a dar um mergulhinho com um sorriso bobo e simpático e acho que ele me olha de longe, a me espiar enquanto nado naquele azul turquesa com meu biquíni vermelho. E o sol brilha inclemente, como diria algum velho romance de aventuras no deserto dos anos quarenta e pinta toda a paisagem com cores duras de apunhalar os olhos vermelhos de cloro.

E eu ouço músicas... Agora mesmo ouço e vejo The Cure e amo ouvir e olhar a balofisse de Robert Smith. E ouvi músicas o dia todo, escolhendo sons pra alimentar o brinquedinho eletrônico novo, para poder ouvi-las quando for pedalar pra piscina da universidade.

E hoje ouvi Camille, uma francesa adorável que minha filha colheu por aí... Bach, Beethoven, Albinoni, Moby, Massive Attack e, como estou obcecada com cores e sons, vou passar o resto do ano catando mais climas sonoros para que se tornem minha trilha nos travellings intermináveis de bike ou de ônibus - não tenho carro e nem pretendo - pela paisagem improvável da cidade tropical calorenta, suarenta, melequenta de creme hidratante e filtro solar, 40 graus e coqueiros de plástico na praia improvável dos desejos impossíveis.

Agora, só uma câmera e novos brinquedinhos eletrônicos me satisfazem, nem sapatos, roupas, lingeries rendadas ou de algodão, brincos ou colares de diamante ou latão, ou a indefectível escova progressiva de chocolate que as peruas burras e ricas - ou nem uma coisa nem outra - usam pra tampar o buraco miserável no qual a humanidade afundou.

Mas nada disso consegue aplacar a solidão e a árida existência que faz com que eu me mova pra água e pro vento pra tentar acalmar o fogo ancestral que ainda me consome de dor e prazer, sabe deus pra quê, isso se ele existisse em sua infinita harmonia, ainda assim não daria conta de nossa falência e se mataria, enfiando-se em um buraco negro grande o bastante pra engolir com ele, toda a sua maldita criação genial chamada humanidade.

Então, é isso, vou procurar ainda umas coisas do Morphine, do Pink Floid, Joy Division, Velvet Underground (como esse nome é bom!), White Stripes, Led Zeppelin, The Doors e até Shakira, Regina Spektor e Maddona e o que mais eu conseguir reunir pra encher o meu próprio buraco negro eletrônico e me afundar na melancolia suarenta de um verão sonolento e úmido, feito uma esponja, uma alma penada portuguesa, uma tahine nostálgica e semi adormecida, enquanto espero que um vento sul poderoso, ou uma tsunami venham dar às costas do atlântico e me empurrem do alto do meu rochedo inacessível para o mais belo vôo cego e livre sem pára-quedas ou tapete voador que possam ser puxados pelas mãos incautas do acaso...

Que venha 2007!

21/12/2006

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorando seus textos. Muito.
Bjs: Mara Coradello.