sexta-feira, 29 de agosto de 2008

OSSO

















14/09/06
ando roendo os ossos
e descascando as feridas
só pra ver se ainda dói
se ainda sangra
se ainda sinto
qualquer coisa que me mostre viva
que me aponte pistas
pra que meu coração
deságüe seu fluxo errante
em algum cais
inseguro da vertigem
do amor
sempre impossível
realizar o sonho
mais impossível mesmo suportar
essa aridez
esse deserto
que enche minha boca de nada
e arranha meus olhos
com a cinza do vazio
inunda meu ventre
com o não vento
de abismos seculares
Olho em volta...
só palavras
e os segundos eternos escorrem
nas paredes desse não lugar ancestral
que se transformou no não ser
que desajeitada tento enfaixar
os fragmentos dessa ilusão nauseada
em vão nomeada EU

terça-feira, 26 de agosto de 2008

crônica carioca 4


















12/06/07 - INDO EMBORA
Cidade entre a culpa e a redenção.
A entrega desmedida à vida que rasga suas veias, do mar até suas montanhas cegas aos seus conflitos, seus barracos de alvenaria pendurados como brincos de um cristo indiferente como indiferente aos seus apelos são os homens...
Mas mesmo assim, tu és tão bela, mesmo com tuas águas podres e a névoa seca que tinge o céu da tarde de cinza amarronzado e suja suas fachadas néo-clássicas, art nouveaux ou belle époque, tanto faz...
Linda dama decadente que ainda tenta se equilibrar nos saltos de passista de escola de samba pelas suas avenidas bêbadas e ladeiras de Santa, onde os meninos e as meninas nada santos descem a rebolar e sacudir suas rasta-cabeleiras, na esperança vã de que o nome do cristo não seja só um nome e que um dia, corações iluminados, essa humanidade corroída, próxima ao fim, alcance enfim a redenção...
Mas dessa vez eu não tive nenhum medo da cidade.
Tudo mudou e andei solta demais por suas ruas, pois já sou livre e não reclamo mais a redenção.

Um brinde a incerteza então, com um chope gelado na Lapa!

Até a próxima...

crônica carioca 3...

















11/06/07 CRÔNICA CARIOCA 3

Já que eu posso e sei que sim, depois que dois ou três amores me disseram que sim e, ouvindo Muse, agora eu sei que sim, pois meu filme termina seu longo processo e eu danço seminua em frente ao espelho no meu quarto em Santa Teresa.
Eu sei que posso, então estou feliz. Termino uma fase que foi de amor, alegria e dor e, de agora em diante, eu não sei mais.
Sei que meu cabelo é mais curto e que tenho mais alguns anos e mais alguns desejos e objetivos talvez absurdos, mas finalmente me sinto livre bastante para voar pro inferno, pro céu, ou pro absoluto inexistente de mim mesma.
Faço hoje meu pacto comigo mesma nessa noite quente de outono no Rio e amanhã... quem sabe?

Acabou...

Tudo muda de agora em diante: 00:00:00 – 12/06/07.

crônica carioca 2 - dos encontros etílicos, improváveis e absurdos.

















10/06/07 CRÔNICA CARIOCA 2

E agora um Rio diferente, um Rio de ladeiras onde me equilibrei na ginga emprestada do carioca...
Só não vou puxar o “s” que acho feio demais, mas redescubro um Rio diferente - embora um professor sempre me tenha dito que não se redescobre nada, pois cada redescoberta é apenas a descoberta atual de algo que estava coberto, portanto o movimento é sempre uma atualização da descoberta e não o da redescoberta - mas como o texto é meu, e quero dar a sensação da memória sendo ativada, eu redescubro um Rio de infância nas ruas da Lapa, hoje diferente com seus botecos, chopes e espartanos, não os 300 como no filme, mas os performáticos na noite zonza com os beijos ao lado da banca de revistas.
E mais chopes, cotovelos apoiados no tamborete da Taberna do Juca, depois de muitas Originais na santa...
E a mão na mão no taxi descendo pros inferninhos domesticados da Lapa e pro sexo no apartamento que eu sinceramente não me lembro mesmo onde fica.
E foram poucos dias, mas acho que me reinventei (olha o re aí de novo), como Bob Dylan e Robert Jonhson na encruzilhada do acaso, no encontro improvável da ciência, filosofia, arte, cinema, rock, beats, sambas não idos, comida árabe e álcool, muito álcool e sexo, muito sexo troglodita, selvagem, punk e taradinha...
A pele branca e a morena e a diversão que de tão leve e prazerosa chega a ser absurda como tudo me pareceu na virilidade desse esbarrão cósmico, mas não místico.
E foi tudo muito bom, mesmo com a lei de murphy cinematográfica do ensaio de orquestra onde acho que sou maestra, mas que ao olhar pro infinito só posso me quedar estupefata em perplexidade diante do universo e seu mutismo frente minha condição humana inventada através dos séculos sobre meu sexo, agora finalmente livre.
E ainda teve Paquetá e a barca, o neutrino e modelos que ora explicam e ora formatam e criam a realidade e nós mesmos.
Teve exposição de fotografias e amigos capixabas no bar do Serafim em Laranjeiras. Bar com nome de outro amigo capixaba, quase físico, quase cineasta, que me ligou pra avisar da morte do irmão da aninha, que finalmente desligou o fio de dor.
E comi tanta porcaria que acho que engordei, mas as ladeiras salvaram minhas pernas e acho que um certo amigo capixaba gostou da pegada, porque eu posso dizer que gostei e muito.
E teve também Foucault e Deleuze e Nietzsche anticristo chutando os padres pra fora e o Gabriel Garcia Marquez pra filha e o livro de cinema pra mim e os docinhos à tarde e o cineasta chato, ressentido, uma folha seca do passado, me irritando com sua prolixidade...
Como é difícil estar vivo tanto tempo na Terra e o que será que o futuro, o devir e as minhas escolhas sobre o acaso me reservam?
E agora eu quero ir pra casa. Depois que tive que sair, pois não agüentava mais essa casa que não é minha. E fui comer no bar do Gomes em Santa Teresa. Comi um sanduíche de pernil em dois pedaços com três chopes e quatro cigarros, depois que o dono da casa fritou bife empesteando o ambiente e nem me ofereceu e fiquei observando as pessoas do bar e não tive vontade de falar com ninguém que estava lá e nem de ligar pra ninguém. Achei que faltava a tal da virilidade e ri sozinha e paguei e voltei pro meu quarto-cela e agora estou louca pra ver televisão...
E sei que ultrapassei mais uma fronteira com essa viagem ao Rio, com o filme desse processo.
Nunca me senti tão livre em toda a minha vida. Livre e pronta pro mundo e pras minhas novas escolhas, novos lugares e novas pessoas.
Algo se anuncia, quase uma alvorada-amanhecer de Saskia.
Como estar na beira do universo, do planeta, do abismo de mim, sabendo que não importa mais quem sou ou se isso não existe... e no lado de dentro só há ossos, músculos e sangue e a dança das partículas.
Me entrego então ao infinito Fora e sinto como se o universo se dilatasse e contraísse em um novo big bang infernal...
E tudo bem que é legal andar pelas ladeiras ao sol da tarde outonal, mas ando com uma saudade louca de pedalar minha bicicleta pelas calçadas de Camburi no suave sol da manhã capixaba ouvindo minha trilha sonora, cabelo ao vento, suor grudando no corpo exigido ao máximo e a alegria limítrofe da velocidade pregada no meu rosto insano e eu juro que não quero “ride my bike” – piadinha particular...

sábado, 2 de agosto de 2008

crônica carioca 1 - do improvável e do absurdo














foto-still - de Rodrigo - do meu filme "A fuga"

04/06/07

Então, to no Rio...

E me descubro com uma puta solidão. Acho mesmo que me precipitei em ter vindo hoje e reservado a casa e tal... Mas pode ser só o estranhamento do primeiro dia no Rio depois de tantos anos sem vir pra cá ou, talvez, por estar em Santa Teresa, bairro em que nunca fiquei e me causa uma sensação de não-lugar, de excesso e exceção no tempo-espaço. Além de ter se tornado um bairro absolutamente turístico, acho que, em toda a minha vida, nunca me senti tão turista, nem quando fui realmente turista em férias pelas inúmeras praias do imenso litoral brasileiro. Talvez por estar trabalhando, o contraste com os “verdadeiros” turistas se torna um tanto absurdo.
Não dormi direito esta noite e nem tenho dormido bem na última semana, pesadelos, sonhos estranhos, suores noturnos e uma insônia excitada com a viagem e o iminente término do filme, chego aqui e fico com este tambor no peito anunciando um final apoteótico que nunca chega.
Desde o ano passado, em que quase me transformei em paulistana, quando já começava a me sentir à vontade como um peixe mutante em seus cinzentos rios-ruas, eu não viajava e agora me sinto verdadeiramente estrangeira nesta cidade prostituta.
Um medo irracional, como quase todos os medos, me ronda o tempo todo. Medo de não conseguir terminar o filme no prazo, de estar deixando coisas importantes por serem feitas em Vitória, de sofrer algum golpe de um carioca esperto... Sei lá, acho que andei acomodada na minha ilha nos últimos meses...
Talvez seja só o término desta fase, desta Saskia, ainda presa ao carma do filme e de tudo que me foi arrancado neste processo. Pode ser que amanhã as coisas estejam diferentes e estarão.
Sinto saudades da minha filha, das pessoas e dos lugares queridos e conhecidos onde circulo, saudades de algo que sei, vai mudar para sempre, como sempre se muda algo quando se viaja e se muda a perspectiva com o estranhamento da paisagem.
E tem o livro que estou lendo e que, no momento só me dá porrada filosófica, as últimas certezas desmoronando, se é que ainda as tinha.
E tem ainda a idéia para uma história: dos amigos, da explosão, da morte dos entes do passado, do vazio e do novo que não vem nunca...
Enfim, é tudo e mais um pouco e as metáforas não são mais suficientes e nem tão claras como antes de ultrapassar a última linha depois da perda da inocência, em direção ao Fora...