terça-feira, 26 de agosto de 2008

crônica carioca 2 - dos encontros etílicos, improváveis e absurdos.

















10/06/07 CRÔNICA CARIOCA 2

E agora um Rio diferente, um Rio de ladeiras onde me equilibrei na ginga emprestada do carioca...
Só não vou puxar o “s” que acho feio demais, mas redescubro um Rio diferente - embora um professor sempre me tenha dito que não se redescobre nada, pois cada redescoberta é apenas a descoberta atual de algo que estava coberto, portanto o movimento é sempre uma atualização da descoberta e não o da redescoberta - mas como o texto é meu, e quero dar a sensação da memória sendo ativada, eu redescubro um Rio de infância nas ruas da Lapa, hoje diferente com seus botecos, chopes e espartanos, não os 300 como no filme, mas os performáticos na noite zonza com os beijos ao lado da banca de revistas.
E mais chopes, cotovelos apoiados no tamborete da Taberna do Juca, depois de muitas Originais na santa...
E a mão na mão no taxi descendo pros inferninhos domesticados da Lapa e pro sexo no apartamento que eu sinceramente não me lembro mesmo onde fica.
E foram poucos dias, mas acho que me reinventei (olha o re aí de novo), como Bob Dylan e Robert Jonhson na encruzilhada do acaso, no encontro improvável da ciência, filosofia, arte, cinema, rock, beats, sambas não idos, comida árabe e álcool, muito álcool e sexo, muito sexo troglodita, selvagem, punk e taradinha...
A pele branca e a morena e a diversão que de tão leve e prazerosa chega a ser absurda como tudo me pareceu na virilidade desse esbarrão cósmico, mas não místico.
E foi tudo muito bom, mesmo com a lei de murphy cinematográfica do ensaio de orquestra onde acho que sou maestra, mas que ao olhar pro infinito só posso me quedar estupefata em perplexidade diante do universo e seu mutismo frente minha condição humana inventada através dos séculos sobre meu sexo, agora finalmente livre.
E ainda teve Paquetá e a barca, o neutrino e modelos que ora explicam e ora formatam e criam a realidade e nós mesmos.
Teve exposição de fotografias e amigos capixabas no bar do Serafim em Laranjeiras. Bar com nome de outro amigo capixaba, quase físico, quase cineasta, que me ligou pra avisar da morte do irmão da aninha, que finalmente desligou o fio de dor.
E comi tanta porcaria que acho que engordei, mas as ladeiras salvaram minhas pernas e acho que um certo amigo capixaba gostou da pegada, porque eu posso dizer que gostei e muito.
E teve também Foucault e Deleuze e Nietzsche anticristo chutando os padres pra fora e o Gabriel Garcia Marquez pra filha e o livro de cinema pra mim e os docinhos à tarde e o cineasta chato, ressentido, uma folha seca do passado, me irritando com sua prolixidade...
Como é difícil estar vivo tanto tempo na Terra e o que será que o futuro, o devir e as minhas escolhas sobre o acaso me reservam?
E agora eu quero ir pra casa. Depois que tive que sair, pois não agüentava mais essa casa que não é minha. E fui comer no bar do Gomes em Santa Teresa. Comi um sanduíche de pernil em dois pedaços com três chopes e quatro cigarros, depois que o dono da casa fritou bife empesteando o ambiente e nem me ofereceu e fiquei observando as pessoas do bar e não tive vontade de falar com ninguém que estava lá e nem de ligar pra ninguém. Achei que faltava a tal da virilidade e ri sozinha e paguei e voltei pro meu quarto-cela e agora estou louca pra ver televisão...
E sei que ultrapassei mais uma fronteira com essa viagem ao Rio, com o filme desse processo.
Nunca me senti tão livre em toda a minha vida. Livre e pronta pro mundo e pras minhas novas escolhas, novos lugares e novas pessoas.
Algo se anuncia, quase uma alvorada-amanhecer de Saskia.
Como estar na beira do universo, do planeta, do abismo de mim, sabendo que não importa mais quem sou ou se isso não existe... e no lado de dentro só há ossos, músculos e sangue e a dança das partículas.
Me entrego então ao infinito Fora e sinto como se o universo se dilatasse e contraísse em um novo big bang infernal...
E tudo bem que é legal andar pelas ladeiras ao sol da tarde outonal, mas ando com uma saudade louca de pedalar minha bicicleta pelas calçadas de Camburi no suave sol da manhã capixaba ouvindo minha trilha sonora, cabelo ao vento, suor grudando no corpo exigido ao máximo e a alegria limítrofe da velocidade pregada no meu rosto insano e eu juro que não quero “ride my bike” – piadinha particular...

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