quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

ipês e koyanisqatsi

10/09/2008

E a cidade está tomada de ipês rosa, daquele rosa claro que eu mais gosto. Também tem daquele rosa mais escuro, mas eu não sei se aquelas árvores também são ipês. Do branco, só vi uma perto da minha casa em uma rua transversal, ela estava linda, feito noiva virgem do interior. Passei por lá todos os dias enquanto ela estava florida com minha bicicleta, só para olhar de baixo pra cima o contraste das flores brancas contra o céu azul da minha linda, mas seca cidade, onde não chove há tempos... e quando começar a chover posso imaginar o estrago que será.
Mas hoje deitei depois do almoço, fiz a siesta e me veio a sensação de verão, aquela sensação de calor misturado com o frescor após a chuva e eu me senti em Barra Nova, quando dormia depois de comer, depois de passar horas debaixo do sol, nadando e catando mexilhões e o corpo banhado, ventilador ligado, o barulho da chuva vespertina lá longe, o sexo e o sono... embora meu companheiro daqueles tempos parecesse só gostar de sexo à noite antes de dormir e perdia grandes lances, é claro... mas tiveram outros verões, outras praias, outras chuvas e outros caras e outros ainda virão, ou não, mas o verão sim, ele eu já pressinto...
Mas comecei pelo ipê porque descobri que o ipê amarelo é uma árvore mágica por um amigo, agora do lado de lá do embate, mas ainda do lado de cá, talvez sempre, talvez nunca. Mais um encontro improvável na cidade maravilhosa, antes em Copacabana, agora na Lapa e dessa vez foi quase como um descarrego, um despacho, um exorcismo, embora já não estivesse há muito tempo dentro de mim e eu não consiga mais reconhecer aquela saskia de quatro anos atrás... foi estranho, foi bem estranho e eu queria saber porque eu tive a impressão que você queria me machucar... e olha que não sou mais a mesma masoquista sentimental de outros tempos, não mesmo... isso acabou definitivamente e realmente me senti absolutamente livre e vi que o resto é passado e isso é muito bom!
E estou muito obcecada por Koyanisqatsi, palavrinha hopi, vida fora de equilíbrio, vida que anseia por outra vida e não sei porque, mas eu andei pensando tanto nesse filme e olhando para ele na locadora e querendo pegá-lo para mostrar pros meus alunos e pra minha filha e revê-lo depois de tanto tempo e agora eu vejo que mexe tanto com meu espaçotempo atual... a sensação de estar na beirada, no limite, na fronteira de algo que não veio ainda e penso na minha filha e na irritação que sinto às vezes com ela e com todos ao redor e ao mesmo tempo na saudade de um tempo em que sabia que ainda era amada e mesmo assim sei que esse tempo agora é necessário e ela tem que me deixar e eu tenho que deixá-la ser livre de mim, mas é ruim e tento expulsá-la antes do fim...
E por que o bom e o belo não vem nunca e se vêm, por que demora tanto e começo acreditar que não virá mais, mas mesmo assim anseio pelo verão, pelo calor, pelos mares, ventos nordeste e saias e vestidos que usarei e por estar longe dessa vida que anseia outra vida e talvez um dia quando olhar pra trás eu possa me lembrar de um tempo em que ansiava por outro tempo, me lembrar de uma saskia que ansiava por ser outra e me lembrar do ipê amarelo que fica em frente à porta da minha casa e que quando ia ao quintal eu olhava pra ele e criava coragem e força ao perceber o quanto ele lutava para se tornar grande e alcançar o sol escondido pela outra árvore grande que toma conta da calçada em frente e este ano, meu ipê amarelo ainda não floriu, talvez não tenha mesmo que dar flores afora... não sei nada das florações das espécies, só aquilo que vejo quando rodo por aí de bicicleta ou de ônibus... mas espero pelas suas flores, que elas venham como o verão e por enquanto vou ouvindo a trilha de Koyanisqatsi em seu minimalismo espiralar e esperando, só esperando...

eclipse e ondas em slow às 3 da manhã ouvindo beirut

O eclipse, eu vi o eclipse e vi e ouvi coisas de além mar, músicas portuguesas e dos Bálcãs e pensei que só se vive uma vez e o resto é sobrevida e tentei inventar um motivo, um desejo de viver e continuar no planeta até a morte tantas vezes anunciada.
E o meu homem gostou do que escrevi e eu continuo sem saber muito bem porque, andando pelos planaltos e planícies do Brasil ando mesmo com ânsia de chegar ao Índico ancestral do outro lado da ancestral África... ouvindo o fado que me formatou portuguesa morena moura que veio dar às praias capixabas e sabe lá porque estou viva às três da manhã com uma caixa preta ouvindo beirut e tendo que responder a tanta coisa sendo que não sei resposta alguma sobre nada, nem sobre meu exílio voluntário em noite de eclipse...
E por que será que os eclipses sempre são em noites de lua cheia?
E por que as ondas são sempre em slow?
Ninguém responde, nem eu, é claro...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

vento andino e a barriga da dani...

11/12 – 6:30h – chapada dos guimarães

no meio do Brasil, no centro de latinoamerica... vento andino e miragens e nuvens raspando a cabeça e cachaça e sinuca e amiga de 20 ans e cineasta profeta e o mirante de onde vimos o ancestral leito do mar interior e os paredões... estamos sobre a muralha e de cá temos como horizonte a cordilheira... e o cinema cresce como cresce a barriga da dani... e o sexo é bom e intenso e eu não sei onde isso vai dar mas agora já é... e tudo deve ser relativo aos bons costumes do lugar...
E tem um personal exu na minha vida e o tsunami anunciado aconteceu e virou tudo de pernas de bailarina pro ar e ando tonta com o coração a disparar...

confederação intergaláctica e clarice em salvador

22/10/2008 – AEROPORTO DE BSB – VOLTANDO PRA VITÓRIA DE SALVADOR... DE NOVO

acho que só vou começar a entender o que está acontecendo agora, daqui a algum tempo, mas sei que as mudanças tão esperadas tanto tempo começaram e estão com seu curso em movimento já desenfreado pelo universo, as forças puxam minhas forças com seu vórtice, como o duto, o buraco de minhoca, a confederação intergaláctica atuando, o buraco negro e eu no meio do furacão quântico com amigos e pontos luminosos se tocando pelo planeta...
ainda não sei de nada mas a bahia e sua magia poderosa me arrancaram do chão, mas me plugaram à terra e continua o fluxo desembestado das partículas.
e é difícil entender ou lembrar mesmo o que se passou no espaçotempo comprimido em seis dias alucinantes a alucinados em que mais de um ano parece se sobrepor em camadas de sentido e não sentido ou direção e os orixás abençoaram e glecyara bruxa cósmica se desfez em espirais entrelaçadas
e fui clarice lispector de vestido branco e conheci o comércio e a praça da mão e dessa vez a bebedeira nem foi insana e fomos de novo no rio vermelho com carla que mudou de santo e comi acarajé reverentemente mas dormi cedo todos os dias menos a última noite pois ainda comi sanduíche de quarto solitário depois que a amiga irmã foi embora e ela me levou pra jantar na noite véspera do meu aniversário no japa e depois fomos a santo antônio festejar na varanda do bar com vista pra baía de todos os santos e conheci ainda outro capixaba que também aniversaria no dia 19, dia do sol e eu nunca tinha percebido isso, quanta luz no meu caminho/destino e eu só agradecia os presentes que acho são merecidos, hoje acho, sem culpa ou medo, considero que estou pronta pro vôo pois sei que já estou nele
e teve mesa grande na varanda e até parabéns com claudino, outro bruxo das terras do espírito santo, único capixaba legítimo e nesse dia, como disse carla, assisti o evento diário do sol se pondo no atlântico no porto da barra, pois na bahia até o por do sol é um evento e merece ser aplaudido com trilha sonora de tambores e corpos negros erigidos ao prazer dançando sua dança infernal dionisíaca e vagabunda...
e mergulhei meus últimos mergulhos dos meus 43 anos no mar de yemanjá e no dia seguinte um carro cheio de capixabas zarpou pra stella e banhei meu corpo e meus desejos nas primeiras águas dos meus 44 anos e agradeci novamente e todos choramos de emoção e beleza e embriaguez da cerveja tomada o dia todo ao sol e cantamos músicas aos berros e claudino quase perdeu o vôo e eu e carla comemos pizza e dormimos e ela foi embora antes do sol nascer
e como profetizado pelo i ching e tarô não rolou nenhum encontro romântico e nem acredito que houvesse desejo pra isso pois o encontro foi o coletivo foi o cinema foi a beleza das idéias materializadas em imagens e sons filosofia e poesia nas narrativas do real

o inútil ciclo

o que mais uma vez acontece que não me deixa dormir...
o que mais uma vez acontece que me empurra para uma viagem cega no tempo
o que mais uma vez acontece que me faz sonhar inutilmente com alguém que não é real
o que mais uma vez me leva a querer interromper o ciclo de morte vida e ressurreição
o que mais uma vez acontece que me faz finalmente ver que tenho que ir embora, migrar como pensei na rua em frente ao hotel em Atibaia e ainda tinha esperanças ou não
talvez apenas imaginasse
depois de tanto tempo acho mais fácil não acreditar em nada, nem em mim mesma

SALA VAZIA TELEFONE MUDO

E VEJO UMA SALA VAZIA ONDE SÓ HÁ UM TELEFONE QUE NUNCA TOCA
E VEJO UMA SALA VAZIA ONDE SÓ HÁ UM TELEFONE QUE TOCA,
MAS NÃO HÁ NINGUÉM PARA ATENDER
E O VENTO MUDOU
E HOJE TODOS SAIRAM UMA HORA MAIS TARDE
OU MAIS CEDO
OU EU ESTAVA FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO COMUM ONDE TODOS ANDAVAM E PEDALAVAM E CIRCULAVAM SUAS DORES E DESEJOS
E AS ÁRVORES DO MEU BAIRRO PERDEM ESPAÇO PARA OS PRÉDIOS
E EU ME EXIBO PROS PEDREIROS QUE CONSTRÓEM MAIS UM EDIFÍCIO NA MINHA RUA
TIRO AS MÃOS DO GUIDÃO E IMAGINO O DIA EM QUE CAIREI
E ELES VÃO RIR
MAS HAVERÁ AQUELE QUE GOSTA MAIS DE MIM E TERÁ COMPAIXÃO,
VAI MISTURAR SUA PAIXÃO COM A MULHER EXIBIDA DE BICICLETA E A SUA COTIDIANA SOLIDÃO MATINAL
E OS IPÊS JÁ COMEÇAM A PERDER SUAS FLORES, DESDE OS ROXOS, OS ROSAS, PASSANDO PELOS AMARELOS E ATÉ AQUELE LINDO COM FLORES BRANCAS QUE ME FAZIA SONHAR QUANDO PASSAVA POR ELE TODAS AS MANHÃS INVERNAIS TROPICAIS E AZUIS CLARAS CRISTALINAS TRANSPARENTES
E O VENTO FRIO PENETRANDO PELAS NARINAS E ME FAZENDO DESEJAR DEIXAR ESSA ILHA PRA SEMPRE
OU TALVEZ SÓ A CHANCE DE UM TEMPO NOVO EM UM NOVO LUGAR QUE EU POSSA CHAMAR DE MEU E UM AMOR QUE SEJA REAL, NÃO OS INVENTADOS QUE TIVE NOS ÚLTIMOS TEMPOS E QUE NÃO SATISFAZEM NADA DE NADA, NEM TAMPAM O BURACO CINZENTO DA EXISTÊNCIA DOMESTICADA QUE TENHO ARRASTADO FEITO CORRENTES EM CASA MAL ASSOMBRADA DE FILME DE TERROR TRASH...
E NESSE INVERNO A PEQUENA IPÊ EM FRENTE AO MEU PORTÃO QUE LUTA PELO SOL COM A ÁRVORE MAIOR AINDA NÃO FLORIU,
TALVEZ ESTEJA CANSADA COMO EU DE ESPERAR A VIDA VAZAR OU O TELEFONE TOCAR...