sexta-feira, 20 de julho de 2012

Com a alma na estrada.

Eu vi o filme, pois é, eu vi... Quem aqui viu “On the Road”? Aliás, quem leu o livro? Ou melhor, quem leu o livro e viu o filme? Como gosto da literatura beat que me inspirou no passado e continua a me inspirar, sinto-me instigada a escrever sobre o filme e mais ainda sobre o livro, pois ultimamente ando lendo muitos autores que cruzam com a linha beat no que ela tem de literatura confessional, dessa escrita na primeira pessoa, além, é claro, de já ter lido Kerouak pra caralho, embora, nos últimos tempos o venha achando um menino criado por vó, ou pela mãe, sei lá. Mas uma coisa eu não posso negar, o cara se jogou. Nessa linha andei pegando uns caras pesados pra ler, brothers de escrita que não se furtam a chamar as coisas pelos nomes e que não tiveram medo de se esborrachar na vida. Suas escritas tem a marca de quem se jogou quebrando tudo na queda. Isso vai desde um Hunter Thompson, até um Henry Miller, passando por Bukowsky, claro, e até Anais Nin, no que ela tem de libertária ao ser uma mulher escrevendo sobre as suas trepadas autobiográficas e chamando buceta de buceta. Também reli o Big Sur do Kerouak, um dos livros da fase final da vida do escritor, um livro cheio da dor e do desencanto de quem viveu demais e se fudeu na estrada. E leio essa turma, pois considero-os realmente brothers da escrita, sinto-me irmanada a eles por alguma corrente poderosa que não respeita as coordenadas espaço-temporais... Com eles me encontro nas encruzilhadas e bifurcações que a minha própria linha da vida me levou, caminhos quase sempre perdidos em estradas que eu não escolhi, mas pelas quais fui escolhida em uma loucura zen sem ter nada de zen, uma loucura iluminada pela insanidade dos tempos, dos espaços, onde transitam os loucos e os aventureiros perdidos na arte, na escrita, no cinema e na loucura de quem não se encaixa muito bem nos sapatos apertados da pós modernidade. Mas, por estar talvez em um momento de intensidade criativa, sentindo os ventos da liberdade de não estar amarrada a nada e nem a ninguém, as ideias tem me assaltado, assim como a vontade de cruzar continentes. Por isso escrevo insanamente e leio com volúpia e gula, mas estradar ainda não está dando, apenas a trabalho, o que também me agrada, apesar de sentir falta da estrada em si, pois que a estrada transforma, a estrada ilumina, na estrada você se mistura ao sujo do mundo, enquanto nos aeroportos, os não-lugares por excelência, ninguém vê nada, mas ainda assim, restam as ruas de todas as cidades por onde andei, por onde ando e andarei. E então, fui ver On the road. Estava doida pra ver, queria ver aquelas imagens que trazia na minha mente de todas as vezes que li o livro, imagens misturadas com minhas próprias histórias, queria vê-las impressas na tela. E assim esperei o filme chegar e eu ter tempo de ir. Então, tive tempo, mas comecei a achar que odiaria o filme e que o filho do banqueiro não teria culhões para a podrera insana da escrita beat e quase desisti. Mas antes mesmo de ver o filme começamos alguns tópicos de discussão nas listas e redes. Algumas pessoas já tinham visto, outras não, umas diziam que era ruim, tedioso, que quase dormiram, uma merda mesmo! Outras diziam que não veriam, outras ainda que queriam conferir e outras que viram e que gostaram. Bom, ainda bem que não desisti. Fui na quarta feira acompanhada da minha filha e do namorado dela. Fui a um cinema num shopping perto da minha casa e voltamos andando pra casa conversando sobre o filme e eu fui falando um pouco sobre o livro e sobre outros da mesma cepa. Os dois falavam das suas impressões, disseram que gostaram, mesmo sem terem lido o livro ou vivido o sonho de inúmeras gerações com a mítica história de Kerouak cruzando a américa dos anos 50 na rota caótica e louca dos deserdados do sonho americano do pós guerra. Eu confesso que gostei do filme. Gostei e sai inspirada, gostei e muitas lembranças e ideias vieram à tona e acho que um bom filme ou um bom livro nos deixa assim, com as ideias querendo pular da cabeça pro mundo, rugindo na urgência do tempo criativo, nos atropelando para ganharem vida... E é assim que eu estou até agora. Mas também confesso que a experiência do filme é mais intensa para quem leu o livro, ou para quem tem as suas próprias histórias de estrada e loucura pra contar. Kerouak ousou olhar a cara do mundo e ela lhe devolveu o olhar através dos olhos dos outros loucos com os quas ele esbarrou nos descaminhos do pesadelo americano. E então, quero saber de quem viu o filme e leu o livro também, pois tem algumas questões que me incomodaram, mesmo tendo gostado da experiência fílmica do Walter Salles. Quem leu o livro, ou conhece o processo de criação da literatura beat, sabe que um dos grandes méritos da literatura de Kerouak é a sua fluidez rítmica que buscou raízes no bebop e na improvisação. Apesar do cara vir de uma linhagem de escritores confessionais que buscaram nas próprias experiências de vida a matéria da escrita, sua literatura está apoiada na escrita automática e tenta reproduzir o ritmo do jazz. É quase uma escrita xamânica que se entrega ao transe e, nesse ponto específico, o filme deixa muito a desejar, nessa transposição do ritmo intenso das palavras surgindo e suingando sincopadas para a tela tansformadas em imagens e sons, que não ocorre nunca no filme. Ok, ele tenta dar esse ritmo no encadeamento frenético de situações caóticas pelas quais os personagens se jogam nas suas vidas aventureiras, ou seja, na história vivida por eles, no relato da experiência, mas não consegue imprimir esse ritmo à narrativa, à montagem, ao mix das imagens e sons do filme. Falta ainda, ao meu ver, traduzir o ponto de vista do personagem Kerouak, ou Sal Paradise, pois não conseguimos enxergar este ponto de vista, o local de onde ele fala no filme. Ele é apenas mais um dos personagens de Salles, quando sabemos que ele é o cara que está vendo aquilo, é o cara que está contando aquela história, é sua voz que deveríamos sentir mais fortemente no filme e ela praticamente some, mesmo sendo essencial na sua invenção de um estado intenso de deslocamento como estilo de vida. Um amigo me disse que tomou “um tapa”, pois nunca tinha lido um livro beat e que ficou “gastando na relação de angústia/prazer que existia na busca deles. Gastação à parte, fiquei intrigado e pretendo começar a ler. Hehehe” – Palavras dele, assim mesmo, numa troca de impressões pelo Facebook. Ao que eu respondi que concordava com a relação de angústia/prazer. A estrada se torna o local ideal pra que essa relação surja realçada em todo o seu contraste. Alí os personagens estão deslocados dos seus outros vínculos, de suas outras relações, não há amarras, eles estão descolados das condicionantes dos seus universos referenciais, de suas famílias, mulheres, filhos, mães, amigos... Na estrada eles podem se entregar às suas próprias fabulações de si e do mundo e é aí que tudo fica mais claro e duro e bonito e feio e sujo e nem tanto, o prazer e a dor sobrepostos em um deslocamento sensorial sem fim. Mas é disso também que sinto falta no filme. No livro não é só o relato da experiência que interessa, a narrativa vai além. Está impresso de forma indelével o desejo de ir de encontro à vida e ultrapassar a “fachada”. O cair na estrada é o cair na vida, se esborrachar na vida, fazer o mundo, se misturar ao mundo. E nessa entrega eles desnudam o que foi aquela geração, o que era a “américa”. Eles desconstroem uma américa para construir outra américa, desconstroem um heroi americano pra erigir outro mito de herói ou anti-herói das estradas, eles descontroem o que era o mundo de aparências daquela década desnudando nesse processo, as dores dos homens, a pobreza dos homens, a loucura de todos os homens, desde sempre, desde que o mundo sempre foi o mundo dos homens e que estava bem escondidinha debaixo dos tons pastel do mundo de propaganda das donas de casa e dos eletrodomésticos do pós-guerra. Então, meu amigo me diz que eles são “andarilhos insanos” e eu só posso concordar, pois é isso, os andarilhos sempre foram insanos pelos olhos do mundo. E eles sempre estiveram no mundo e continuarão no mundo, nas avenidas paulista e vieira souto, nas praias do canto, nas BRs, nas rodovias pelos litorais, nos bares fudidos e vivos das periferias, nos jardins botânicos, nas praias e praças... Enfeiando a paisagem das vitrines das lojas mais caras do planeta e sujando o jantar das famílias. E eles optaram por serem andarilhos insanos e todos pagaram o preço como todos os andarilhos insanos sempre pagaram e continuarão a pagar cumprindo a louca função social e cultural de desnudar a loucura do mundo, mostrar a ferida do mundo e ser a ferida do mundo. Eles se recusaram a se encaixar no padrão, se recusaram a ser capturados pelas normatizações tão presentes no nosso presente insípido de shoppings centers... Nessa rota de colisão eles foram os próprios olhos do mundo e a torta rota do mundo encarnada nos seus corpos imundos da jornada inútil onde nunca houve ponto de chegada nem prêmio pro vencedor. São esses meus brothers de estrada e de escrita.