terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Naqueles dias, ela andava como todos os ilhéus: ilhada, encharcada, germinando dores, afogando amores e doando os afetos que não mais serviam.
Pensou se ainda havia um futuro ou uma vida pelos quais lutar, se ainda havia um horizonte para sonhar... Ao redor tudo se mostrou cinzento e amorfo, céu líquido a desabar sobre as vidas, a morte a chegar inexoravelmente por todos os lados.
Mas algo a fazia continuar, caminhar, subir a montanha para tentar enxergar a linha divisória entre céu e águas. Afinal ainda havia vida, embora embaçada pela névoa que nublava os olhos dos passantes.
Até quando resistiria? Isso ninguém conseguiria responder naquele momento, talvez só depois que a vida tivesse sido editada.
Muito menos ela, que não conseguia  ver até onde iria aquela morte que mordia os pedaços do mundo aos bocados gordos, deixando ao fim apenas os ossos que costumam sobrar nos banquetes de fim de ano.

Ela realmente não sabia, mas como diria Deckard,  “who knows?”...